Renovando forças e ampliando conexões na região Sul: a experiência do ERGA-Sul!

O Encontro Regional de Grupos de Agroecologia, o ERGA-Sul, reuniu mais de 230  pessoas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul

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O clima frio não espantou as caravanas e comboios que chegaram ao camping do Parque Estadual do Rio Vermelho, em Florianópolis (SC), local escolhido para a realização do I Encontro Regional de Grupos de Agroecologia da Região Sul. Estudantes, técnicos/as, educadores/as e membros de diferentes grupos, redes e organizações vinculadas à agroecologia, carregam nas mochilas, além das barracas e colchonetes, experiências, desafios e propostas de caminhos alternativos para o modelo em curso.

Com o intuito de dinamizar as articulações, o fluxo de informações, a organização e o apoio mútuo nas diferentes regiões do país, a Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil, a REGA Brasil, vem construindo encontros regionais. O primeiro aconteceu em abril na região Centro-Oeste e o segundo aconteceu entre os dias 26 a 29 de maio na região Sul.

Resistência nas universidades: grupos autônomos de estudos e Núcleos de Pesquisa, Ensino e Extensão em Agroecologia

“Minha palavra é resistência”, diz Fabrício, estudante da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e segue dizendo que “desde o início eu percebi que os grupos de agroecologia nas universidades, nada mais são que resistência. Resistir e lutar por algo muito diferente do que está dado, do que a gente ouve na sala de aula. Eu estudo Biologia, mas eu convivo com a galera que faz agronomia na UFPel e a gente vive uma realidade das trevas. É, praticamente, proibido falar de agroecologia. Pensar uma nova ciência, pensar uma nova relação com a natureza, passa muito longe do que acontece. Por isso o Grupo de Agricultura Ecológica, o GAE, grupo que eu participo, é uma resistência na UFPel e acredito que todos os grupos e núcleos de agroecologia onde estiverem, são resistência”.

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Assim como Fabricio, vários outros estudantes compartilham suas angústias sobre a realidade adversa vivenciadas dentro das universidades. Fortalecer o ensino, a pesquisa e a extensão em agroecologia é desafio permanente. Ines Burg, da Diretoria da Associação Brasileira de Agroecologia, a ABA-Agroecologia, conta sobre a criação da Associação e os desafios enfrentados para que a agroecologia seja reconhecida e compreendida como ciência.

Em uma das rodas de conversa do ERGA-Sul, realizada no dia 28 de maio, Ines e Natália Almeida, que integra a equipe do Projeto de Sistematização de Experiências dos Núcleos de Agroecologia, coordenado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), e realizado pela ABA-Agroecologia nas cinco regiões do país, falam sobre a conquista

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das Chamadas Públicas para financiamento dos Núcleos de Agroecologia.

A partir dos esforços da ABA-Agroecologia e de um conjunto de apoios foi possível captar, a partir do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), recursos de outros Ministérios e, com apoio do CNPq, realizar editais que aplicassem recursos em projetos voltados para a indissociabilidade entre a pesquisa, o ensino e a extensão em agroecologia. O primeiro edital foi lançado em 2010 e hoje são mais de 150 núcleos espalhados pelas universidades, institutos federais e entidades de pesquisa.

Sistematização de Experiências: O que estamos aprendendo juntos/as?

A roda de conversa “O que estamos aprendendo juntos/as?” no ERGA-Sul tem como objetivos ampliar o coletivo que, na região sul, vem se dedicando a articular e sistematizar as experiências movimentadas pelos Núcleos de Agroecologia e construir espaços de formação e troca de experiências sobre as metodologias de sistematização. A participação dos estudantes, em muitos casos, os principais protagonistas das experiências de extensão realizadas pelos NEAs junto às comunidades rurais, é fundamental para que as iniciativas e os olhares da juventude estejam presentes.

Na oficina, o diálogo mais próximo com os movimentos sociais, a necessidade de atividades práticas, como os mutirões, a organização estudantil e as metodologias educativas populares apareceram como caminhos possíveis para o fortalecimento da agroecologia na região sul, dentro e fora das universidades.

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Trocando experiências sobre a sistematização, a oficina lembrou que a sistematização envolve processos históricos e sociais dinâmicos que estão em permanente mudança e movimento. Um de seus pilares é a valorização dos saberes das pessoas que são sujeitos destas experiências. Envolve investigação e avaliação, mas contempla a narração dos acontecimentos, a descrição dos processos, a escrita de memórias, a classificação de tipos de experiências e a ordenação de dados em uma interpretação crítica da realidade vivida.

Re-conhecer e Integrar
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O objetivo deste primeiro ERGA-Sul foi facilitar o  reconhecimento dos diversos grupos de agroecologia da região, sejam eles vinculados às universidades ou independentes, para fortalecerem-se enquanto uma rede de articulação regional, com suas pautas, demandas, ações e agendas próprias. O evento é considerado, “um marco para o enraizamento da REGA Brasil no sul do Brasil que, com a realização dos próximos encontros, pretende alavancar a organicidade e as articulações, tanto localmente (localidade dos grupos anfitriões dos eventos) como regionalmente, bem como conectar cada região do país a fim de tecer a articulação nacional”, é o que diz Mariana Reinach, também da REGA.

No I ERGA-Sul, como nos demais encontros da REGA, todos os participantes, além de terem a oportunidade de trocar experiências, ideias e práticas, vivenciaram quatro dias de imersão, compartilhando o convívio e a gestão comunitária do encontro em suas diversas dimensões: no preparo das refeições, na organização e limpeza dos espaços, na transparência em relação aos recursos financeiros para custeio do evento, no manejo dos resíduos gerados durante o encontro, na proposição de oficinas e de espaços artísticos e musicais, nas decisões em consenso, na comunicação compartilhada para registro do encontro como um todo, e assim por diante. Mariane e Tatiana, reforçam que foram momentos de inspiração, de aprimoramento organizacional, pessoal e metodológico, de florescimento de novas ideias, e de muito aprendizado com-partilhado, na busca constante pela coerência daquilo que se idealiza com aquilo que se vive, para elas “Resistência, Re-existência!”.

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Mariana, aponta ainda que “como um primeiro passo de uma longa jornada de vida, rumo à potencialização e dinamização da atuação conjunta através da Agroecologia, a REGA Brasil, tão jovem quanto suas/seus integrantes, se sente revigorada e com a inspiração renovada a cada encontro e partilhar! Juventude enquanto estado de espírito e opção política! Temos jovens desde os mais novos até os com mais anos de caminhada e experiência”. Os ERGAs acontecerão anualmente e serão sediados de forma rotativa pelos estados. Na região sul, o próximo será em Pelotas/RS em 2017, tendo o Grupo de Agricultura Ecológica, o GAE-UFPel, como focalizador do processo.

“Se a gente não trabalha em rede, a gente não se encontra”

É o que reforça Tatiana Furquim, uma das articuladoras da REGA na região sul, segunda ela, “as práticas da REGA vem apontando a importância da organização dos grupos. Se a gente não trabalha em rede, a gente não se encontra”. A oficina, assim como todo o ERGA-Sul, destacou a importância do trabalho organizado e em rede. Como exemplo, duas pesquisas de mestrado vinculados à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e realizadas tendo como fio condutor metodológico, a sistematização de experiências, foram identificadas ao longo da oficina. A identificação e articulação de ações comuns, como as duas dissertações de mestrado, demostram a importância da agroecologia ampliar e qualificar seus canais de comunicação e articulação.

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As ações do próximo período do projeto de Sistematização, serão dedicadas à construção dos Seminários Regionais de Sistematização de Experiências. Estes serão momentos presenciais importantíssimos de formação e articulação regional dos NEAs. Os seminários terão como objetivos principais: a) Proporcionar espaços de formação sobre a sistematização de experiências, b) Possibilitar a troca de experiências sobre a sistematização entre os núcleos e parceiros regionais, c) Exercitar coletivamente o uso de diferentes ferramentas e estratégias de sistematização, d) Fazer a definição conjunta de pelo menos três experiências que serão aprofundadas pelo Projeto, e e) Elaborar planos de sistematização para os três casos definidos.

Em cada região, coletivos de sistematização estão se formando com a participação de representantes dos projetos das Redes de NEAs (projetos de atuação regional), dos núcleos e de parceiros regionais, para construção conjunta nesses seminários e desenvolvimento das demais ações de sistematização de experiências. No diálogo com a região Sul, a segunda semana de agosto e o estado do Paraná, pelo maior número de NEAs, foram indicados como períodos e locais possíveis para a realização do Seminário Regional Sul que deve acontecer na segunda semana de agosto no Paraná.

Para saber mais: sistematiza.aba@gmail.com

Este texto foi feito de forma colaborativa por: Mariana Reinach, Tatiana Furquim e Natália Souza

Fonte: http://aba-agroecologia.org.br/wordpress/?p=2603

Integrar para não entregar: agroecologias do Sul

Re-conhecimento e re-existência no I ERGA Sul – Encontro Regional de Grupos de Agroecologia da região Sul

Por Michele Torinelli

 

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pequenas formigas 

plantam o corpo 

do mundo

[Versos de Nathalia Drumond, do curso de Agroecologia da UFPR Litoral, inspirado no encontro. Registros poéticos.]

 

Camping do Parque Estadual do Rio Vermelho. Florianópolis. Santa Catarina. Brasil. América Latina. Mais de duzentos grupos e pessoas se reuniram de 26 a 29 de maio para trocar experiências e fortalecer a rede agroecológica no sul do país. A articulação é focalizada pela REGA – Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil, que representa as juventudes na ABA – Associação Brasileira de Agroecologia.

O clima foi de celebração, mas também de denúncia e de chamado à organização: denúncia do golpe à democracia, do governo ilegítimo de Michel Temer, do desmonte do Ministério do Desenvolvimento Agrário, bem como dos retrocessos nas políticas públicas para as mulheres, para os agricultores e de caráter social como um todo. A chamada é para que os movimentos afirmem suas ações e integrem suas lutas – para não entregar as conquistas. É hora de, mais do que nunca, resistir. E re-existir.

A proposta do encontro regional surgiu no último ENGA – Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia, realizado em agosto do ano passado em Belém do Pará. A galera de Floripa que estava lá presente fez a frente de criar as bases para a concretização do evento, a partir da construção coletiva, da autogestão e da horizontalidade – princípios que guiaram não só a preparação, mas também a dinâmica durante o encontro.

Mais de cem pessoas acampadas, autogestionadas, cuidando do preparo dos alimentos orgânicos, da limpeza, da harmonização, do registro e da realização das atividades. Rodas de conversa, de abraços, de avisos, de música e de capoeira. Oficinas, debates, trocas diversas. Quatro dias intensos nos quais grupos experientes se renovaram e novos grupos se formaram. Em que pessoas de 2 a até mais de 70 anos interagiram por uma vida radicalmente sustentável, alegre e colaborativa, para todos e por todos. [Veja fotos das gentes e grupos agroecológicos aqui].

 

Movimentos sociais e agroecologia

O encontro contou com dois debates oficiais (porque informais foram vários), ou ‘espaços de diálogo’: Áreas protegidas, Agroecologia e Comunidades TradicionaisMovimentos sociais do campo e a resistência agroecológica. No primeiro falou-se sobre legislação ambiental, e a principal pergunta que ficou foi: legislação para quem? Percebe-se que há várias restrições preservacionistas que impedem as comunidades tradicionais de reproduzir seu modo de vida em meio à natureza, levando-as às periferias dos grandes centros urbanos na luta pela sobrevivência, enquanto há fartos incentivos oficiais à propagação de uma agricultura ecologicamente e socialmente destrutiva – o chamado ‘agronegócio’. Leis que inviabilizam as culturas tradicionais e a agricultura familiar, mas que subsidiam a monocultura decommodities à base de veneno para exportação.

“A presença humana é prejudicial à natureza? “, questionou André ‘Chitão’ Martins, do Cepagro – Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo. Não necessariamente. Ele conta que o Parque Estadual do Rio Vermelho, onde se localiza o camping gerido atualmente pelo Cepagro, antigamente era uma área quilombola – o Quilombo Vidal Martins. O parque, um dos primeiros estaduais, tem 50 anos, e o camping, 40. Um lugar histórico.

Na época em que era habitado pelos quilombolas, a vegetação era composta por restinga e roça de subsistência. Na década de 60, com a demanda por madeira e a araucária já escassa de tanta extração, o governo expulsou a comunidade e plantou pinus. Hoje a praia do Moçambique, no Rio Vermelho, é margeada por uma extensa plantação de pinus, que se sobrepôs à vegetação original.

Esse é um dos muitos exemplos que comprovam que a presença humana, em harmonia com a natureza, pode ser até mesmo benéfica para o meio, como frequentemente demostram as comunidades tradicionais – e eis o desafio que o Cepagro assumiu no camping, migrar para essa lógica por meio da agroecologia. Já o inverso também fica comprovado: como políticas socialmente e ecologicamente irresponsáveis, que visam somente demandas comerciais a curto prazo, intervêm negativamente, e muitas irremediavelmente, na natureza.

Como enfatizou Bruna Amante, do Coletivo UC da Ilha, não dá para discutir agroecologia sem fazer o enfrentamento ao sistema político que está dado. E é preciso rememorar que a agroecologia não é algo novo, mas a retomada de velhas práticas marginalizadas, como defende Natália Almeida Souza, representante da ABA – Associação Brasileira de Agroecologia.

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Representantes de movimentos sociais no campo: Ocupa Amarildo e MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Apesar das diferenças, unidos na luta pela agroecologia e contra o sistema capitalista.

O segundo debate, que reuniu integrantes de movimentos sociais e comunidades agroecológicas, enfatizou a necessidade de intensificar e conectar as ações no atual momento político. Leandro Lavratti, da Comuna Amarildo, movimento que surgiu em Florianópolis em 2013 e que atualmente ocupa uma área com mais de 20 nascentes e cinco rios em Águas Mornas, explica que trata-se de uma ocupação agroecológica de resistência que bate em quem tem que bater: o sistema capitalista.

“A gente descobriu que as terras haviam sido griladas na cara dura e ocupou”, diz Leandro. A comuna não faz parte do MST. Entre outras diferenças, os Amarildos não dividem as áreas em lotes, mas coexistem em uma grande área comum. Mas Leandro, que é filho de assentado do MST, destaca que não se trata de disputar qual movimento é melhor, mas de somar na luta por terra, trabalho, teto e liberdade.

Como relata Elis Rodrigues, que também falou em nome do movimento, a ocupação em Florianópolis chegou a abrigar 740 famílias – o que comprova a demanda por moradia na cidade. Com a mudança para Águas Mornas, o número de famílias reduziu drasticamente, mas a Comuna continua articulada com uma grande rede de apoio: a ideia é expandi-la para que abarque as demais ocupações na região e os quilombolas, pois trata-se de uma luta conjunta pela terra.  [Conheça a história da Comuna Amarildo aqui].

Tanto Elis quanto Leandro convidaram a todas e todos a visitar a Comuna, participar de mutirões e convocar os Amarildos para compor outras lutas – afinal, é sempre necessário articular os movimentos, mas, frente ao cenário atual, é urgente. “A tensão é inevitável, mas a gente nunca acreditou que a mudança viria de cima”, avalia Neiva Viera, agricultora do assentamento Justino Drazewske, do MST-SC. Ela conta que o MST está intensificando suas articulações, mas que sempre foi um movimento ousado. “O vermelho da bandeira não é por acaso, não é porque é bonito. Mas porque teve muito sangue derramado nessa luta pela reforma agrária”, argumenta. “As principais armas do MST hoje são a produção de alimentos saudáveis e a ocupação do saber”, complementa Neiva.

A agricultora fez um chamado para que nos próximos encontros regionais de agroecologia haja agricultores também acampados e que os alimentos consumidos durante o evento provenham deles. “Que enfrentemos o desafio dessa organização conjunta”, disse ela, colocando-se à disposição.

Thomas Enlazador, um dos fundadores do IBC – Instituto Biorregional do Cerrado e integrante da CASA – Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina, acredita que estamos frente a uma oportunidade histórica de declarar territórios autônomos, como fizeram os zapatistas mexicanos em Chiapas, em 1994. “Precisamos colar junto com os movimentos, com as comunidades indígenas e quilombolas, e ir pra cima. Colar junto com os movimentos secundaristas que estão revolucionando as escolas nesse país”, convoca. Ele defende que não dá pra falar em sustentabilidade sem uma crítica consistente ao modo de produção capitalista, ou acaba-se esvaziando o termo, algo bastante comum nos dias atuais.

 

Uma outra cultura de comunicação é possível

Como era de se esperar num evento colaborativo e autogestionado, foi possível propor atividades previamente, junto ao formulário de inscrição. Sugeri realizar a oficina Uma outra cultura de comunicação é possível: cobertura colaborativa, guerrilha midiática e direito à comunicação. Como militante da democratização da comunicação, vejo a importância estratégica dessa pauta transversal, essencial para que todas as outras sejam disseminadas e para que todas as discussões aconteçam de maneira diversa, plural e democrática. Ou seja, trata-se de uma luta para viabilizar todas as outras lutas. O MST e a perseguição que sofre por parte da mídia de massa, assim como as lutas sociais como um todo, que o diga.

Sugeri um debate a partir desses três vídeos: 1. Levante sua voz – A Verdadeira história da mídia brasileira, 2.  Guerrilha midiática, 3. Cultura – da universidade às ruas, para então sairmos com uma proposta de cobertura colaborativa do encontro. O primeiro vídeo apresenta o concentrado panorama da comunicação do país; o segundo, a natureza estratégica da comunicação para os movimentos sociais (acabou não rolando esse, fica para a próxima); e o terceiro é um exemplo do que pode ser feito a partir de uma cobertura colaborativa, disseminando conteúdo a partir de outros formatos.

 

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Mapa conceitual da roda inicial de apresentação – parte da ‘assessoria colaborativa’ do evento. Coisa da Mariana Bianchini, que estuda História na Udesc.

Propus para a galera da organização pensarmos essa oficina conjuntamente, tendo em vista uma prática de comunicação compartilhada durante o evento, possibilitando a criação de uma outra cultura de comunicação, participativa e colaborativa, e o registro do encontro, de modo a garantir sua memória – a história comum contada por seus participantes.

Em conversa com organizadoras ao chegar ao local do evento, percebemos que a proposta vinha justamente a calhar com uma ideia que tinha surgido horas antes: além de se ter os eixos rotativos autogestionados de limpeza, alimentação, harmonia e realização das atividades, surgiu a ‘assessoria’, responsável por registrar o evento. Não se sabia ainda bem como, e decidimos discutir as possibilidades na oficina de comunicação compartilhada.

A conversa aconteceu na primeira noite do evento para que a comunicação pudesse compor o encontro desde o começo, e registrar as outras atividades. E assim tivemos uma grande roda com mais de trinta pessoas e coletivos para pensar e discutir que comunicação queremos e podemos fazer. Alguns questionamentos surgiram: como romper o muro da desinformação? Como transcender a lógica da comunicação como negócio? Como disseminar as experiências de transformação a partir de uma outra cultura de comunicação?

A partir dessa conversa e da prática de assessoria, o encontro contou com relatoria colaborativa, sínteses das atividades em cartazes pendurados pelo espaço comum, muitos fotógrafos, um documentarista (aguardamos o doc!), poetas e por aí vai. Esse texto, inclusive, faz parte desse laboratório de comunicação compartilhada, em que não importa só transmitir informação, mas comopor quê.

Essa história de comunicação compartilhada surgiu em 2001 no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, tendo em vista que a construção de um outro mundo possível deveria não só ser divulgada, mas, para vir a existir, precisaria engendrar uma outra cultura de comunicação. E assim surgiu a Ciranda. Em Curitiba, em meio ao Festival de Cultura, o coletivo Soylocoporti, junto a diversos parceiros, desenvolveu essa proposta em seus laboratórios de comunicação compartilhada, e o resultado da experiência pode ser conferido no documentário e na revista do Festival.

Fiquei muito feliz com a experimentação e com as possibilidades que se abrem para que elaboremos criativamente e colaborativamente nossa comunicação, transversalmente às mais diversas lutas. É só o começo. Que os laboratórios se multipliquem e que, frente à monocultura da mídia de massa, tenhamos uma comunicação cada vez mais diversa, sustentável e, por que não, agroecológica.

Oficina de bioconstrução de geodésica de bambu

Oficina de bioconstrução de geodésica de bambu

Várias oficinas foram realizadas, como a disputada conversa sobre astronomia e biodinâmica com o Mario Barbarioli, nosso jovem mais empolgado e experiente; permacultura vegana; compostagem; bioconstrução de geodésica de bambu; panificação artesanal e fermentação natural; PANCs (Plantas Alimentícias Não-Convencionais), entre outras.

Eu participei da oficina de confecção de zine como distribuição de material autônomo, facilita pela Luiza Damigo, que estuda Agroecologia na UFPR Litoral. A proposta tem tudo a ver com comunicação compartilhada – pra quem não sabe, zines são produções independentes artesanais de baixo custo e fácil reprodução. Pudemos discutir seu surgimento e evolução, conhecer algumas zines que a Luiza trouxe pra gente ver e criamos nossos pequenos exemplares. Descobrimos que com uma folha só é possível fazer um lindo caderninho que, desdobrando, vira um poster. E pudemos filosofar e poetizar e rememorar o quão complexo é retomar a simplicidade.

As fanzines, que surgiram da vontada dos fãs das histórias em quadrinhos de discuti-las por meio de publicações próprias na década de 30, transformaram-se em zines na década de 60, ganhando caráter político e independente

As fanzines, que surgiram da vontade dos fãs de histórias em quadrinhos de discuti-las por meio de publicações próprias na década de 30, transformaram-se em zines na década de 60, ganhando caráter político e independente

 

Despedidas e próximos encontros

Domingo (29) foi dia de plenária final, de redigir a carta do encontro, de desarmar barraca, carregar mochilas, de distribuir mudas de nativas e abraços de adeus – ou até breve. Também despedida da atuação no camping para o Cepagro, que geriu o espaço de maneira agroecológica nos últimos dois anos. O contrato com a FATMA – Fundação do Meio Ambiente, órgão estadual de gestão ambiental, não foi renovado. “É bem simbólico esse encontro pra gente”, disse Chitão.

Vida longa ao Cepagro e parabéns pelo belo trabalho! Já ouviu falar da Revolução dos Baldinhos? Então, esse foi só um projeto da iniciativa, e muitos outros virão. [Veja aqui a nota de despedida do Cepagro do camping].

O GAE – Grupo de Agroecologia da Universidade Federal de Pelotas assumiu a responsa de puxar a organização do próximo ERGA-Sul. Nos vemos ano que vem em Pelotas, pois! Ou, quem sabe, no próximo ENGA, que vai ser em dezembro na Paraíba.

Que, até lá, a rede se multiplique e se fortaleça – e siga semeando e cultivando a re-existência.

Imagem por Guilherme Fabrin

Imagem por Guilherme Fabrin

 

Fonte: http://vidaboa.redelivre.org.br/2016/06/03/integrar-para-nao-entregar-agroecologias-do-sul/

Sete anos após a reunião germinal, por ocasião do Fórum Social Mundial de Belém em 2009 que que reuniu diversos Grupos de Agroecologia e outras organizações e atores que atuavam com Agroecologia no Brasil para se articularem e pensarem num encontro que congregasse as coletividades agroecológicas, e que deu gênese ao Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia e posteriormente à criação da Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil, estivemos de volta à Belém no Pará para o VII Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia que aconteceu conjuntamente ao IX Congresso Brasileiro de Agroecologia entre os dias 28 de set. a 1 de out. de 2015.

Agradecimentos à Seidji Kokubo pela captação, edição e montagem do vídeo.

https://regabrasil.wordpress.com/7o-enga/
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1098606976831251.1073741837.319324161426207&type=3
https://www.facebook.com/REGABrasil/

 

Confira as imagens do encontro:
https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fmedia%2Fset%2F%3Fset%3Da.1098606976831251.1073741837.319324161426207%26type%3D3&width=500

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CARTA ABERTA DO I ENCONTRO REGIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA DO CENTRO-OESTE

CARTA ABERTA DO I ENCONTRO REGIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA DO CENTRO-OESTE

Entre os dias 25 e 26 de abril ocorreu, em Urutaí-GO, o I Encontro Regional de Grupos de Agroecologia do Centro-Oeste (I ERGA – CO), que inaugurou a semana de atividades da Feira Agro Centro-Oeste Familiar 2016, durante a qual a Agroecologia enquanto paradigma foi muito pautada e debatida. O ERGA é promovido pela Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA Brasil) e realizado coopera-ativamente por pessoas e grupos/núcleos envolvidos com a agroecologia na localidade sede. A ideia dos encontros regionais é criar espaços autônomos de convergência entre pessoas e coletividades agroecológicas a fim de ampliar o enraizamento da REGA nas diversas localidades/regiões, efetivar sua autogestão e constituir/consolidar articulações regionais, fortalecendo contruções, lutas e enfrentamentos locais, em conexão com construções, lutas e enfrentamentos de outras localidades/regiões, bem como com construções, lutas e enfrentamentos de caráter nacional.

O Centro-Oeste brasileiro é atualmente responsável pela maior produção de grãos do país, correspondendo a mais de 40% desta, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, 2015). Ao mesmo tempo, possui o maior número de cabeças de gado entre as regiões, segundo o IBGE (2006). Essa produção agropecuária é baseada no modelo de produção monocultor em larga escala, altamente mecanizado, com uso excessivo de insumos químicos (venenos e fertilizantes) e baixo emprego de mão-de-obra, o que provoca a expulsão de muitxs trabalhadorxs do campo, a concentração de terra e renda, a contaminação e destruição da vida, dos recursos hídricos e do solo e a perda da sócio-biodiversidade, potencializada pelo uso de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) e/ou híbridas, modelo de produção a qual possui baixa (ou nenhuma) produção de alimentos saudáveis para população.

Tal modelo hegemônico de ocupação agrária e de produção de alimentos (ou melhor, muitas vezes tão somente produção de commodities), aliados à apatia social com relação à vida política, assim como à falta de participação no acompanhamento da formulação e execução das políticas públicas, impede o alcance da soberania e autonomia dos povos, agravando o cenário de insegurança alimentar e a desigualdade social. Destaca-se, ainda, a ameaça à memória biocultural das comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas, geraizeiros, povos das águas e das florestas, assentamentos da reforma agrária, dentre outros. Essas memórias são fundamentais para a garantia da Soberania Alimentar e a manutenção dos saberes e sabores tradicionais, tão abundantes e diversos em nossa região e indispensáveis para a reprodução social das comunidades.

A saída do Brasil do mapa mundial da fome (FAO, 2015) representa um importante avanço das políticas publicas de controle da fome e desnutrição no país. Porém, é necessário lembrar que 2% da população brasileira permanece em situação de insegurança alimentar. A ausência de um plano estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) no estado de Goiás é um importante exemplo do descaso e da irresponsabilidade política presente no Centro-Oeste. O atual momento de crise econômica, política e social põe em risco as conquistas e avanços das estratégias e ações de SAN, que devem ser garantidas pela exigibilidade de direitos por parte dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada. Nesse sentido, ressaltamos a importância da garantia de manutenção e execução de programas e políticas a nível governamental e social.

Essa conjuntura é resultado da dominação política do Agronegócio na região, respaldada inclusive pela bancada ruralista no Congresso Nacional. Alceu Cartilho em sua obra “O partido da terra” (2012) apresenta dados constando que nos estados do Centro-Oeste em média 60% dos prefeitos são donos de terras. Esse poder político-econômico-cultural exercido na região é responsável pela manutenção da lógica coronelista que tanto atrapalha o empoderamento e o fortalecimento da autonomia da sociedade civil, incluindo agricultorxs, trabalhadorxs urbanos, estudantes, quilombolas, indígenas e demais comunidades tradicionais, entre tantas outras classes invisibilizadas no processo, dito, ‘democrático’.

Este cenário talvez nos explique o porque grande parte da sociedade fica passiva diante de casos como o lançamento aéreo de veneno em uma escola no município de Rio Verde/GO, intoxicando crianças e professores; a situação no município de Lucas do Rio Verde/MT, um dos maiores produtores de soja do país, onde pesquisas realizadas pela Universidade Federal de Mato Grosso em associação com a Fundação Oswaldo Cruz (2011) constam amostras de leite materno os quais identificaram que 100% das amostras continham ao menos um tipo de princípio ativo contido nos agrotóxicos e, em algumas, até seis tipos; ou mesmo o genocídio que vem ocorrendo com os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, para citar alguns exemplos.

A Agroecologia apresenta-se como uma alternativa a tal modelo excludente e degradante de sociedade, ao buscar compreender e dialogar com as realidades locais, respeitando a vida em toda sua potencialidade e diversidade. A partir de sua multidimensionalidade, que leva em consideração aspectos políticos, econômicos, culturais, sociais e ambientais, porta uma visão holística e integral do ser e do mundo, trazendo novos caminhos capazes de transformar subjetiva e objetivamente a presente situação, na luta por uma vida em comunhão e harmonia entre todos os seres, ao agir em consonância com os ciclos biogeoquímicos do planeta e ao edificar uma ética fundamentada no empoderamento e autonomia dos povos a partir da constituição de um paradigma sociocultural mais justo e igualitário.

Nos eventos da REGA procuramos apresentar, discutir e colocar em prática esse paradigma. Busca-se estabelecer espaços de vivência, diálogo, intercâmbios e formação teórica e prática horizontais, baseados em uma pedagogia compartilhada entre xs participantes, dando prosseguimento e aprimorando uma tradição que há décadas constitui a atuação dos Grupos de Agroecologia inseridos no meio acadêmico que, não encontrando espaço nas universidades e em suas estruturas curriculares, procuravam autonomamente pesquisar/praticar/estudar e construir conhecimentos outros os quais as universidades, hegemonicamente tomadas pela lógica da “Revolução Verde” e do Agronegócio capitalista, não poderiam oferecer. Sendo assim, além do espaço de estímulo à reflexão e debates, temos um laboratório dedicado ao questionamento e desconstrução de paradigmas, bem como à experimentação e à prática de outras formas relacionais, tanto dos seres humanos entre si, como entre estes e as outras formas e manifestações de vida, como com outras manifestações culturais ou com o ambiente que nos cerca. O encontro, assim como a REGA, possuem dinâmicas não-hierárquicas e autogestionárias de organização e atuação, almejando incentivar o compromisso e a responsabilidade coletiva, de cada pessoa (célula) em prol do coletivo (corpo).

Tivemos a presença de pessoas e Grupos/Núcleos de agroecologia de diversas localidades do estado de Goiás e do Distrito Federal, contando também com a participação de grupos do norte do país (Tocantins) e representantes de outras regiões do país. O encontro foi realizado principalmente (mas não só) com o objetivo de identificar os Grupos/Núcleos de agroecologia do Centro-Oeste, promover e fortalecer a articulação entre eles, para desta forma planejar possíveis ações comuns para movimentar o cenário político da região.

Estivemos presentes também durante a Agro Centro-Oeste, na qual a REGA organizou um dia dedicado à Feira de Troca de Sementes Crioulas em conjunto com uma roda de conversa sobre Agrobiodiversidade e Soberania Alimentar, em parceria com agricultorxs, comunidade e outras entidades (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Agroecologia/NEPA e Laboratório de Sementes, ambos do IF Goiano Urutaí, Movimento Camponêns Popular/MCP, Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Agricultura Familiar/NEAF da UFG de Jataí, IFG cidade de Goiás e Núcleo de Agroecologia de Mineiros-GO – UNIFIMES/EMATER). Além disso, participamos da reunião Brasília Agroecológica 2017: Caminhos e o Caminhar, que pautou o X Congresso Brasileiro de Agroecologia, o Congresso Latino Americano de Agroecologia, o IX Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia e V Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e Entorno, momento no qual pudemos sintonizar nossas aspirações e sonhar coletivamente os eventos, bem como consolidar a parceria ja existente com a Associação Brasileira de Agroecologia/ABA. No momento foram notórias duas questões em particular, a de que temos que pensar em formas de realizar um evento coerente e próximo da situação do campo, da luta e da organização coletiva, assim como a percepção de que temos muito o que fazer e nos esforçar para estabelecer espaços nos quais xs agricultorxs e povos tradicionais se sintam acolhidxs e à vontade para efetivamente frequentar e participar, e consequentemente co-construir a ciência Agroecológica.

Participamos também de uma roda de conversa sobre as experiências das Caravanas Agroecológicas e Culturais, as quais são potentes ferramentas de articulação e mobilização e possuem a abordagem territorial e o olhar atento às denúncias e anúncios existentes pelos seus percursos. A roda de conversa permitiu aos/às participantes aprofundarem-se mais acerca dos processos de articulação, financiamento e logística relacionados à realização de uma Caravana. As experiências articuladas pelos núcleos dos Estados de GO, MT, MS e Distrito Federal estão cogitados para serem os pontos de partida da primeira Caravana do Centro-Oeste, a qual está prevista para acontecer em julho de 2016.

Outro espaço que marcamos presença, compondo a mesa, foi o II Encontro de Técnicos do Meio Rural, debatendo Juventude, ATER e transição agroecológica, durante o qual estiveram presentes, em sua grande maioria, jovens estudantes de Escolas Familia Agrícola (EFAs). Tal espaço foi importante para trazer à tona a potencialidade que a juventude representa na transformação do campo e da própria sociedade pois é ela, organizada, que tem a energia contestadora para buscar e criar alternativas para a transição agroecologica, favorecendo a resistencia e a manutenção intergeracional camponesa.

Os diálogos e trocas de saberes e experiências proporcionaram importantes análises conjunturais e encaminhamentos de atuação entre os grupos do centro-oeste, gerando uma agenda coletiva e possibilidades de ações sincrônicas e em rede. O evento foi fundamental para uma maior inserção da REGA no Centro-Oeste, bem como um marco para a articulação entre os grupos de agroecologia do centro-oeste. Destacamos uma questão que ficou evidente em muitos espaços, que é a necessidade premente que temos, não só no Movimento Agroecológico mas também em outros movimentos e organizações políticas, de nos unir e organizar para darmos conta das contradições, desafios e dilemas que se apresentam.

A REGA Brasil e a Comissão Organizadora do I ERGA – CO agradecem a acolhida e o apoio por parte do IF Goiano de Urutaí, do NEPA (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Agroecologia) e da cidade de Urutaí e se coloca à disposição para futuras parcerias. Agradecemos também ao apoio da UFG, da Rede de Núcleos de Agroecologia do Centro-Oeste (R-NEA), ao GWATÁ-UEG – Núcleo de Agroecologia e Educação do Campo e ao IFG da Cidade de Goiás. Também agradecemos ao apoio, por meio de doação de alimentos, realizado pela Associação para o desenvolvimento da Agricultura Orgânica (ADAO-GO), pela Natural Alimentos e Gaia Orgânicos, ambas localizadas em Goiânia-GO.

 

Saudações Agroecológicas,
Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA Brasil)/Articulação Centro-Oeste
Urutaí/GO, 26 de abril de 2016

enga

CARTA ABERTA DO VII ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA

CARTA ABERTA DO VII ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA

Chegamos na terra de Belo Monte e Eldorado dos Carajás – localidade onde ocorreu o massacre à camponesxs, que anualmente lembramos e lutamos no dia 17 de Abril, o Dia Internacional da Luta Camponesa. Terra de tantas Marias e Joãos historicamente submetidxs, marginalizadxs e chacinadxs. Amazônia, última fronteira ao avanço Civilizatório/Patriarcal e Capitalista que subjugam, dominam, matam e exploram. A lógica da usurpação – mineração e agronegócio, extração de matéria-prima e exploração dos saberes e a mão-de-obra local, os infindos e exaustivos ciclos de miséria e escassez generalizada. Fundamentos políticos nefastos que se impõem historicamente a ferro e fogo e que se arrastam há milênios com sua mentalidade hierárquica – proprietária/patrimonial classista restritivas. Estes são alguns esboços dos desafios que se colocam para a atuação e articulação no amplo território paraense (e amazônico), que todavia apresentam problemáticas em comum com as lutas travadas em outras territorialidades.

Semear a liberdade, autogerir, assumir a responsabilidade coletiva, questionar e desconstruir paradigmas e arregaçar as mangas para construir um todo que acolha, respeite e aprenda com a diversidade. Refletir, re-significar o olhar acerca de como as coisas podem ser nesse mundo, perceber nossos padrões, escolher e re-existir. O ENGA é um encontro construído pela Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil – REGA Brasil, uma rede que nasce de pessoas e grupos que praticam a Agroecologia e, a partir de uma tomada de consciência, percebem que se ver nx outrx pode fazer a diferença para forjar o mundo que acreditam, fortalecendo assim a construção desse movimento de transformação. O processo de construção do evento, bem como a dinâmica da rede, é uma forma da REGA materializar seus objetivos, de incentivar a emancipação e a autonomia do ser humano de qualquer forma de dominação e opressão que os tabus alimentados milenarmente pelo Patriarcado, que modernamente se manifesta via Sistema Capitalista, têm exercido na sociedade.

A partir da dedicação em estabelecer um diálogo mais próximo com as comunidades locais afim de compreender e dar visibilidade a suas principais pautas, foi com muita gratidão que recebemos em nossa geodésica de bambu, construída dentro do Hangar, o Territorio das Juventudes e espaço do ENGA junto ao IX CBA, sentadxs em roda, olhando olho no olho, representantes dessas comunidades para debater Territórios e Territorialidades, Gênero e Feminismo e Racismo Religioso. Os diálogos foram realizados com as lideranças de povos da floresta, erveiras, mulheres empoderadas, feirantes, movimento negro e agricultoras da reforma agrária baseando-se nas principais demandas e conflitos destxs agentes locais.

É evidente a percepção desses agentes quanto às limitações na relação com o Estado, fazendo com que priorizem a ação direta através da auto-organização coletiva. Percebe-se uma tendência de radicalização na luta através de estratégias mais combativas na defesa dos bens comuns socioambientais sendo que a luta institucional aparece como uma ferramenta complementar na conquista de suas pautas.

Reconheceu-se a necessidade do enfrentamento ao machismo dentro dos movimentos sociais e dificuldades com os próprios companheiros de luta, incluindo a violência doméstica em diversos níveis.

Apesar da alegria e do brilho dos nossos olhos o tempo é de profunda tristeza. Os povos originários do Brasil não só estão – propositalmente – esquecidos, mas são massacrados. Precisamos discutir e pensar em estratégias imediatas para garantir a sobrevivência dos povos que visceralmente fazem agroecologia, como por exemplo os Guarani-Kaiowa, que com seu sangue tem resistido em defesa da Mãe Terra. Sim, a força dos povos originários está aqui presente, mas muito ainda temos que avançar, enquanto Movimento Agroecológico, na aproximação com as questões indígenas, que ainda são muito incipientes. As diferentes comunidades tradicionais do Brasil são destruidas pelas estratégias empresariais que as colocam como meros refugos dos recursos naturais, sem consciência e direitos. Denunciamos aqui a perpetuação do projeto fundamentalista cristão repaginado hoje nas igrejas pentecostais, braço ideológico do neoliberalismo, que devasta e demoniza nossas raízes culturais. Exemplificamos os ataques sistemáticos e a desterritorialização dos Povos de Terreiros, Povos Amazônicos, Quilombolas, Quebradeiras de Coco Babaçu, Caiçaras, Ribeirinhos e Extrativistas que, sim, são invisibilizados enquanto atorxs que enraízam, cultivam e criam em sintonia com a Mãe Terra. Enfatizamos a importância de uma mais maior presença Indígena, dos Povos da Floresta, dos Povos dos Maretorios*, Povos de Terreiro, Movimento Negro, Erveiras, Camponesxs, entre outras identidades, nos espaços acadêmicos e técnico-científicos como o CBA e nos de construção das políticas agroecológicas, pois sem estas vozes não podemos dizer que estamos edificando a Agroecologia. É necessário que pensemos, discutamos e, principalmente, executemos estratégias imediatas para garantir os direitos territoriais, a soberania alimentar e a diversidade étnico-cultural desses povos.

Não haverá Agroecologia sem que reconheçamos nossas raízes e ouçamos as vozes de quem sempre a viveu cotidianamente.

Celebramos os avanços metodológicos do CBA, assim como mais esta construção conjunta e complementar junto ao ENGA e à REGA Brasil. Desde a realização do I ENGA em Curitiba, em 2009, a relação dos ENGAs com os CBAs, quando simultâneos, tem sido forjada conforme amadurecemos as identidades de cada um dos espaços. De forma semelhante, temos percebido avanços importantes nos CBAs, a exemplo das apresentações de trabalhos virem se consolidando como espaços mais dialógicos e plurais, bem como o próprio reconhecimento e exercício dos ENGAs enquanto espaços de (re)construção dos conhecimentos e das práticas agroecológicas, todavia ainda temos muito o que avançar para uma maior integração entre ambos os eventos, assim como entre as diferentes organizações – ABA e REGA, bem como há muito o que fazer, uma vez que os espaços, os processos e as dinâmicas pelos quais o evento tem sido realizado expressam muito sua intenção e forma, manifestando sua abertura ou não para diferentes coletividades e sua potencialidade ou limitação para reais transições agroecológicas.

Com intenção de dialogar, afinar perspectivas de atuação e de trocar experiências, diferentes setores da juventude que compõem o campo agroecológico nacional estiveram juntos em uma roda de prosa com o tema “Juventudes e Agroecologia: desafios ao protagonismo Juvenil”, um momento importante para a REGA em que buscamos aprender com as outras organizações da juventude e compartilhar nossos acúmulos organizativos, dialogando, assim, nossas perspectivas políticas. Hoje a REGA é responsável pela gestão do GT Juventudes da ABA e nessa roda de conversa pudemos dialogar a ocupação desse espaço como uma estratégia de articulação e atuação conjunta – porque somos Futuro, mas antes, e como um primeiro entendimento compartilhado, afirmamos: as Juventudes são o Presente!

No tocante às políticas públicas, defendemos os Pontos de Agroecologia como uma proposta da REGA para a democratização e descentralização da gestão da II PLANAPO, o que para nós se configura em ação de empoderamento das pessoas e coletivos informais que cotidianamente constroem a agroecologia nos mais diferentes teritórios do campo e da cidade. Com relação à nossa atuação, damos destaque às campanhas da REGA que são as principais estratégias de articulação e mobilização em rede durante todo o ano, são elas: o Maio Agroecológico, o Plante o ENGA, as Caravanas Agroecológicas, as Micorrizas, as Feiras de Trocas de Sementes Crioulas e o apoio a Campanha Permanente Contra o Uso dos Agrotóxicos e pela Vida.

Compreendemos que o convite para uma maior contribuição da REGA para a organização do CBA 2017 já expressa que a construção mais integrada de ambos os eventos é uma vontade compartilhada. Desse modo, queremos dialogar no intuito de somar forças para trabalhar na prática essas contradições e amadurecer a identidade de cada um sem interferir em nossa autonomia. Nesse contexto, firmamos aqui o convite para a Transição Agroecológica do X CBA em Brasília rumo ao bem viver.

Reunidxs também no acampamento do VII Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia, no Campus da UFRA na área do grupo IARA, cerca de 400 participantes celebramos juntxs outras formas de conviver, compartilhar e se relacionar. Em nossos encontros buscamos ao máximo coerência entre nosso discurso e prática e damos ênfase em viabilizar recursos financeiros por meio do autofinanciamento. Diante do contexto desafiador que se apresentou infelizmente não conseguimos manter uma proposta praticada nos encontros da Rede que é o de nos alimentarmos da produção local e agroecológica. Nossa estratégia de superação foi então buscarmos alimentos por meio da prática do carapirá* no CEASA, reduzindo, mesmo que minimamente e de forma pontual, o desperdício. Participantes do encontro se organizaram diariamente de maneira rotativa para coletar os alimentos de madrugada e para o preparo das refeições servidas no encontro. Os produtos de higiene artesanais utilizados no espaço do acampamento foram fabricados com bases ecológicas, sendo disponibilizados sabonetes, pó dental e repelente para todxs xs participantes. Os resíduos gerados foram tratados com a utilização de banheiros secos, além da separação dos recicláveis e compostagem dos resíduos orgânicos. Vivenciamos momentos de intensas trocas, aprofundamos e partilhamos nossas reflexões, dentre elas o não acesso da juventude negra se refletindo na estrutura da REGA, onde tanto nas plenárias quanto nos espaços de discussão, a maior parte dos negros e negras presentes no espaço se encontravam figurados em fotos que ornamentavam a geodésica. Na tentativa de quebras de tabus, na expressão máxima do ser coletivo, compartilhamos espaços mistos de banho com a lua cheia. Dessexualização*** dos corpos, questionamento e desconstrução na prática de valores, moral e costumes impostos: juntxs contemplamos o eclipse lunar e intensificamos ainda mais nossos processos reflexivos e de transformação coletiva.

Por fim, temos consciência dos desafios que nos são apresentados, numa sociedade profundamente marcada pelas relações regidas por uma governança pautada na representatividade verticalizada, da qual ainda estamos dependentes e reféns. Esperamos que o encontro proporcione um espaço formativo e um laboratório e incubador para a experimenta-ação de praticas sociais e organizativas outras e que essa vivência reverbere nas pessoas e coletividades agroecológicas em suas práticas cotidianas e alavanque as mudanças que desejamos construir no mundo.

Saravá mamãe xoxota!!!

Belém do Pará, 01 de outubro de 2015
REGA Brasil (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil)

* Denominação que os comunitários de RESEX dão aos territórios marinhos

** Expressão regional para xepa ou recicle, ou seja, o aproveitamento e a re-ciclagem dos alimentos que seriam jogados fora em feiras, CEASA, mercados, etc.

*** Questionamos inclusive o conceito vigente de sexualidade que possui uma compreensão restrita meramente à reprodução, às genitálias e ao coito. Reivindicamos uma compreensão mais abrangente de sexualidade, que envolva o sistema corporal como um todo, incluindo suas pulsões, a libido e a bioenergia em interação com nossos sentimentos, emoções, afetos e as diferentes formas e âmbitos de relação social.

CARTA AGROECOLÓGICA DE PORTO ALEGRE 2013

Com o tema “Agroecologia: cuidando da saúde do planeta”, o VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia reuniu-se em Porto Alegre no período de 25 a 28 novembro de 2013 para refletir sobre o momento atual e os desafios da agroecologia. A escolha deste tema reflete a constatação da existência de uma crise de dimensões globais de caráter sistêmico e multidimensional que se alastra e se aprofunda como resultado da reprodução ampliada de um padrão de desenvolvimento fundado no consumo insustentável de bens da natureza e na acentuação de desigualdades sociais. A configuração dos modernos sistemas agroalimentares, caracterizados pela extremada artificialização dos processos produtivos e pelo crescente afastamento entre a produção e o consumo de alimentos é um dos fatores determinantes dessa crise. Os promotores e principais beneficiários dessa crise são corporações empresariais que exercem seu poder político e ideológico sobre instituições do Estado no sentido de criar as condições para ampliar seu controle sobre os processos de produção e consumo alimentar, viabilizando desta forma sua estratégia de reprodução ampliada do capital à revelia dos impactos negativos sobre a saúde, o ambiente e da crescente degradação das relações sociais, em especial no que tange às relações de gênero, étnicas, raciais e geracionais. As promessas tecnológicas anunciadas por essas corporações, bem como os marcos institucionais -na linha da economia verde- por elas impostos têm contribuído para agravar a crise que se revela em diferentes formas de violência e opressão.

O modelo de educação vigente permanece seguindo uma concepção de produção de conhecimento cartesiana e tecnicista, sem levar em consideração os saberes historicamente acumulados pelos agricultores e agriculturas familiares camponeses e as inúmeras iniciativas educativas que tem como enfoque a Agroecologia que emergem no Brasil.

É inequívoco o fato de que uma consciência social crítica frente a esse cenário começa a exigir mudanças radicais no modelo de desenvolvimento e de relacionamento humano. Embora as pressões da sociedade venham permitindo alguns avanços institucionais importantes, que devem ser reconhecidos e celebrados, essas conquistas são ainda largamente insuficientes face à magnitude da crise socioambiental. É diante desse contexto que celebramos o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica como uma conquista da mobilização social. Permaneceremos mobilizados para assegurar sua imediata implementação. Ao mesmo tempo, continuaremos mobilizados para que o seu escopo seja ampliado.

Tendo em vista que os efeitos negativos desse modelo já alcançam dimensões inaceitáveis, muitas vezes com a geração de danos socioambientais irrecuperáveis, tornam-se imperativas iniciativas mais potentes com capacidade de mobilização social para enfrentar estruturalmente a crise desde a esfera local até o âmbito internacional. Diante desse quadro, os 4.448 participantes do VIII CBA-Agroecologia manifestam o que se segue:

Com relação a organismos geneticamente modificados e agrotóxicos

Repudiamos as iniciativas que visam retirar poderes deliberativos do Ibama, Mapa e Anvisa na análise de OGMs e agrotóxicos. Ao contrário, reinvindicamos que a CTNBio volte a atuar como uma instância de caráter consultivo submetida a esses órgãos. Cobramos também o cumprimento da Lei de rotulagem de OGMs e apoiamos a iniciativa em discussão na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul com vistas à rotulagem de alimentos produzidos com o uso de agrotóxicos.

Reivindicamos imediata modificação nos critérios de formação e operação da CTNBIO, com responsabilização jurídica de seus membros pelas consequências/impactos (econômicos, sociais, na saúde e ambientais) de decisões relativas à liberação de OGMs. Cobramos transparência nos processos decisórios e a realização de audiências públicas no caso de novas tecnologias e de avaliações dos monitoramentos pós liberação comercial.

Exigimos incorporação de critérios socio-econômicos nas avaliações de risco envolvendo OGMs, e que só sejam apoiadas pelas políticas públicas aquelas tecnologias que contribuam efetivamente para processos de desenvolvimento sustentável. Além disso, reinvindicamos que os OGMs sejam excluídos de políticas voltadas à agricultura familiar. Exigimos a manutenção da moratória aos OGMs com tecnologia GURT (terminator) e o endosso ao protocolo de Nagoya/Kuala Lumpur que trata da responsabilização dos agentes/atores contaminantes com OGMs e das normas de compensação de agentes/atores contaminados.

As áreas prioritárias para conservação da biodiversidade bem como suas áreas de amortecimento devem ser decretadas como territórios livres de transgênicos e agrotóxicos. Os territórios em que existe presença relevante de sementes crioulas devem ser mapeados e protegidos contra a contaminação transgênicas. O Estado deve apoiar a constituição e consolidação de redes sociais atuantes na conservação da agrobiodiversidade de âmbito territorial.

Com relação à construção do conhecimento

Afirmamos a necessidade da implementação e da ampliação do eixo de Conhecimento do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

Reivindicamos que os princípios e diretrizes sistematizados no I Seminário Nacional de Educação em Agroecologia , sejam adotados como referencial orientador das experiências de educação em agroecologia, e das ações de Educação realizadas pelos vários níveis de governo.

Reivindicamos que as instituições de pesquisa e extensão internalizem os princípios da Agroecologia, organizando grupos de pesquisa e extensão, contratando e formando professores e pesquisadores para atuação profissional a partir da perspectiva agroecológica e alocando os recursos necessários ao cumprimento de projetos que articulem o conhecimento cientifico-acadêmico ao conhecimento popular-cultural das agriculturas familiares camponesas. Reivindicamos também a ampliação dos editais de inovação tecnológica, educação, pesquisa e extensão junto à agricultura familiar, visando o fortalecimento de processos e estratégias produtivas referenciados na Agroecologia.

Em relação às mulheres

Reafirmamos a importância de espaços estratégicos de formação, articulação e produção do conhecimento e das práticas agroecológicas realizadas pelas mulheres, integrando a abordagem de gênero e feminismo.

Reafirmamos a importância do reconhecimento das mulheres como geradoras de conhecimento, processos e atividades de base agroecológica. Reivindicamos espaços e instrumentos que assegurem recursos e políticas, bem como pesquisas que estimulem, viabilizem e confiram visibilidade à ação protagonista das mulheres no processo de desenvolvimento sustentável.

Em relação a políticas públicas estruturantes

Reivindicamos que o Programa de Aquisição de Alimentos seja ampliado e consolidado e que a Reforma Agrária seja retomada a partir da perspectiva agroecológica.

Porto Alegre, 28 de novembro de 2013

O crescimento da Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA)

O Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia (ENGA) foi criado em 2009, em paralelo ao Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), realizado em Curitiba (PR), evento acadêmico do campo agroecológico. A partir das experiências vivenciadas em 2009 foi criada em 2010 a Rede dos Grupos de Agroecologia (REGA). Para contar a história desse movimento conversamos com Heitor Mancini Teixeira, estudante de engenharia florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), e integrante da REGA.

O estudante conta que acompanha os Encontros Nacionais dos Grupos de Agroecologia (ENGAS) desde sua criação em 2009, e explica que eles surgem a partir da necessidade de articular os diversos grupos no Brasil que trabalham a temática da agroecologia. As atividades visam proporcionar a troca de conhecimentos, o afinamento das ideias e a criação de pautas únicas entre os diversos grupos. Na entrevista a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) ele apresenta algumas reivindicações dos grupos, e expõe expectativas sobre o próximo encontro nacional do movimento.

De 2009 para cá como se deu esse acúmulo de experiências? Como foi o amadurecimento do movimento, e quais os avanços desde então?

O primeiro ENGA foi organizado em Curitiba e teve como parceiro a Via Campesinacom uma participação mais forte. O encontro foi um grande sucesso apesar da falta de experiência em termos de estrutura e metodologia. Já no segundo ENGA, em Aldeia Velha (RJ), percebemos que o movimento estava crescendo muito, mas ainda com alguns problemas de organização: os espaços não começavam na hora, metodologias muito abertas, etc. Essas críticas foram amadurecidas e o processo foi ficando cada vez melhor. Sempre tentamos trabalhar nos ENGAS a estrutura coerente com a proposta agroecológica. Cada encontro é diferente do outro, mas percebemos no último, realizado ano passado em São Carlos (SP), um avanço muito grande nessa área. Desde os produtos de higiene (sabonete artesanal, shampoo natural, pó dental, etc) disponibilizados pela comissão organizadora, até o banheiro seco com os dejetos compostados posteriormente. A galera trampou muito antes do evento para viabilizar essa estrutura, foram construídas cisternas de captação de água, teve um mutirão para o plantio dos nossos alimentos, etc.

O crescimento da Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA)

Estamos avançando muito também nas metodologias, temos incorporado muitas coisas do dragondreaming, que busca gerir projetos de forma sustentável e participativa. Um grande desafio é que nos organizamos por auto gestão, não tem hierarquia, é totalmente horizontal e não é tão fácil na prática. Nos primeiros encontros estávamos ainda ensaiando, quando você fala que uma coisa é sem hierarquia e auto gestionada não quer dizer que não vai ter em certos momentos uma liderançaou uma divisão de tarefas. A partir da experimentação e estudo vamos entendendo melhor essa questão. Avançamos muito nisso também, sendo que no último ENGA todos os espaços ocorreram de forma muito fluída. Além das vivências e oficinas, os espaços políticos e plenárias, foram bem organizados com encaminhamentos concretos.Mas ainda temos desafios, como a tomada de decisões fora dos espaços presenciais, como os ENGA’s. Por sermos um movimento nacional, às vezes precisamos tomar posicionamentos, como uma carta, e ainda enfrentamos certa dificuldade nesse sentido.

E do ponto de vista político, quais os temas debatidos nesses encontros?

Vemos a questão política de uma forma bem ampla, acreditamos que ela também está ligada ao nosso cotidiano, como a gente leva nossa vida e nossos princípios. Mas também discutimos posicionamentos políticos mais a nível nacional, como a questão da criação dos Pontos de Agrocologia nas comunidades, visando a descentralização dos recursos e maior facilidade de acesso por parte dos agricultores e da comunidade. Já há alguns anos, nossa Rede se articula com a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), o que aumenta nossa incidência política e possibilita o contato com diversas organizações e atores políticos.O crescimento da Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA

Outra questão discutida dentro da REGA é a questão dos cursos de agroecologia que estão surgindo nas universidades e institutos de ensino. Achamos importante ter, até para profissionalizar a agroecologia, mas ao mesmo tempo temos que tomar cuidado para não nos limitar. Muitos professores e pessoas envolvidas nesses cursos estão inseridos dentro da lógica convencional, e acabam restringindo o pensamento agroecológico. Isso pode ser observado na falta de utilização de metodologias participativas e também no foco apenas em questões produtivas que se assemelham mais à discussão da agricultura orgânica,enquanto a agroecologia tem uma visão mais holística envolvendo várias esferas. A criação desses cursos pode ser interessante, mas defendemos que a agroecologia deve perpassar todos os cursos da universidade por ser uma ciência, uma prática e um movimento interdisciplinar. Geralmente isso não acontece nos cursos, que geralmente são orientados para a questão convencional do agronegócio e da grande produção. Aí que entra o papel dos grupos de agroecologia localmente para conseguir contribuir para a formação diferenciada de estudantes de outros cursos, como engenharia florestal, agronomia, direito, nutricionismo, etc.

A questão das sementes crioulas também é bastante forte dentro da Rede. Em determinados eventos, como o III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), realizado em Juazeiro (BA) no ano passado, nossa organização foi responsável pela Feira de Troca de Sementes, envolvendo muitos agricultores e uma grande variedade de sementes de todo o Brasil.

Como é a relação de vocês com os jovens do campo, e quais dificuldades e avanços eles enfrentam nos territórios?

Atualmente não temos muitos participantes da juventude rural que nasceu e sempre foi do campo, estamos tentando uma aproximação maior. Já tivemos relação com o MST e Via Campesina na organização dos encontros, nosso último sementário foi numa área do MST, mas ainda não tem uma grande participação. Por outro lado vemos muitas pessoas que participam da REGA e são da cidade indo ao campo, e achamos isso muito interessante. Precisamos fortalecer esse movimento de jovens que estudaram e passaram ou não por universidades e tenham essa vontade de morar no campo para produzir e muitas vezes não têm incentivos. Essa é uma pauta da REGA.

Nossa relação com a juventude do campo vai muito também com os trabalhos de extensão dos grupos de agroecologia. Porque não temos um trabalho da REGA com a juventude rural, e sim dos grupos que compõem a REGA. Muitas vezes,existe uma forte influência da cultura da cidade no campo. Nesse sentido buscamos valorizar a cultura do campo, mostrar como aquilo pode ser importante e saudável, questionando os estereótipos de miséria e atraso. Precisamos evoluir nesse pensamento e tentar trabalhar as coisas dialogando com as comunidades.

Qual a perspectiva do próximo ENGA?

Será no final de setembro deste ano em Belém, junto ao CBA. É muito legal porque tem muitos grupos que compõem a REGA, mas estão concentrados no sudeste e no sul, pouco no nordeste e menos ainda no norte. Então vemos um grande potencial em agregar os grupos da região e tentar incentivar essa discussão da agroecologia em lugares que não tem grupos. Já começamos esse contato com os grupos do norte e eles estão animados, o grupo Iara está acompanhando as discussões lá.

Nesse ENGA vamos continuar buscando a sustentabilidade do evento, com coerência entre prática e teoria. Estamos também bolando algumas estratégias para que a articulação com o CBA seja efetiva junto com a ABA. Estamos participando da organização do CBA, e pensaremos formas de contribuir com a questão metodológica e outras coisas. Surgiu a possibilidade darealização de um seminário para tentar aproximar as outras juventudes mais ligadas ao campo. Além disso, a proposta é ter um espaço permanente dentro do CBA, onde se crie uma instalação pedagógica com nossos materiais, sementes, estruturas de bioconstrução, para dialogarmos com o pessoal do Congresso. A idéia também é abrir o espaço para diferentes juventudes entre os diversos grupos que trabalham essa questão.

Realizamos também campanhas nacionais, como o maio agroecológico que é um mês onde tentamos articular os grupos do Brasil inteiro para atividades em busca de maior expressão nacional. Queremos que esse movimento cresça e outras organizações se unam a essa ideia e comecem a organizar coisas em maio. Temos também o encontro do sementário, que neste ano será em Caxambu (MG). No seminário, conversamos as posições políticas da rede e pensamos no fortalecimento das nossas pautas e ações coletivas.

(*) As fotos são do arquivo pessoal do entrevistado.

Via site da ABA: http://aba-agroecologia.org.br/wordpress/?p=2199

Carta Agroecológica de Curitiba 2009

Carta Agroecológica de Curitiba 2009
VI Congresso Brasileiro de Agroecologia e
II Congresso Latino-americano de Agroecologia

Os cerca de 3.800 participantes inscritos no VI Congresso Brasileiro de Agroecologia e II Congresso Latino-americano de Agroecologia, reunidos em
Curitiba (PR), Brasil, no período de 9 a 12 novembro de 2009, tendo como tema central “Agricultura familiar e Camponesa: experiências passadas e presentes construindo um futuro sustentável” vêm através da presente afirmar o que segue:

A agricultura latino-americana e brasileira passam por uma crise sem precedentes caracterizada por níveis recordes de pobreza rural, fome, migração, degradação ambiental, intensificada pelas mudanças climáticas e as crises energética e financeira. O modelo agrícola industrial exportador e a expansão de monocultivos de transgênicos e de agrocombustíveis e do uso intensivo de agrotóxicos são diretamente responsáveis por essa crise. Está claro que esse modelo convencional é inviável e que a Agroecologia fornece as bases científicas e metodológicas para as estratégias de transição a um novo paradigma de desenvolvimento. A base cultural, social e produtiva desse novo paradigma está, especialmente na agricultura familiar camponesa, fonte fundamental de saber agrícola tradicional, de agrobiodiversidade e de estratégias de segurança e soberania alimentar.

Considerando o acima exposto, reafirmamos:

1. O papel da Agroecologia para a mudança de paradigma de
desenvolvimento capaz de construir uma agricultura biodiversa, de base
familiar camponesa e resiliente às mudanças climáticas;

2. O compromisso da Agroecologia em transformar essa realidade de
iniqüidade do campo, promovendo o desenvolvimento rural e a
construção de um mundo mais justo, solidário e ambientalmente
sustentável;

3. A importância da adoção do enfoque científico da Agroecologia, cuja
base epistemológica pressupõe o intercâmbio dos saberes técnicocientífico
e popular;

4. O reconhecimento da importância da agricultura familiar camponesa e dos saberes dos povos indígenas e tradicionais para assegurar o fortalecimento do tecido social e da identidade cultural dos povos latinoamericanos, incluindo o acesso a terra, sementes e água e o direito à segurança e soberania alimentar;

5. A necessidade de reconhecimento dos saberes e experiências das mulheres nas suas práticas ligadas à reprodução da vida: segurança e soberania alimentar, saúde, manutenção e conservação da agrobiodiversidade. Que suas reivindicações e demandas sejam valorizadas por extensionistas, pesquisadores, gestores e lideranças;

6. A importância de contemplar o tema das relações de gênero, evidenciando a necessidade de valorizar as contribuições das mulheres e as questões que dificultam a sua participação como sujeitos plenos de direitos, entre elas, a violência cotidiana enfrentada pelas agricultoras;

7. A importância do I Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia (I ENGA) realizado durante o congresso, onde se reuniram mais de 40 Grupos de Agroecologia (GA’s) de várias localidades do Brasil, com ou sem vínculo acadêmico, contando com mais de 500 participantes de executivas de curso (Federação dos estudantes de Agronomia do Brasil, Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal e Entidade Nacional dos Estudantes de Biologia), da Via Campesina e da Rede de Arte Planetária (RAP). Durante o encontro colocaram em
prática princípios da Agroecologia como bioconstruções, sanitários ecológicos, feiras de trocas, oficinas, debates, entre outros e cumpriram com seus objetivos: construção de uma Rede entre os GA’s proporcionando espaços de intercâmbio entre os diversos participantes;

8. O nosso apoio às estratégias de educação em Agroecologia em todos os níveis, bem como a produção científica e tecnológica e os respectivos meios de disseminação, para fortalecer o diálogo com o conjunto dos conhecimentos necessários à construção do conhecimento agroecológico e a formação de uma massa crítica capaz de enfrentar os desafios do futuro;

9. Que se deve ampliar as políticas públicas e as estratégias de pesquisa, de extensão e de desenvolvimento científico e tecnológico de promoção dos princípios da Agroecologia, incluindo-os como referência teórica e metodológica nas instituições, valorizando e respeitando as singularidades territoriais, promovendo a cidadania e o desenvolvimento rural sustentável;

10.A necessidade de fortalecer e ampliar os mecanismos de interação, intercâmbio e cooperação da ABA e da SOCLA com instituições da sociedade civil organizada, com vistas às atividades de produção, ensino, pesquisa, extensão e construção do conhecimento agroecológico, em consonância com as demandas emergentes de
estratégias de adaptação às mudanças climáticas, uso sustentável dos recursos energéticos e hídricos e manutenção da biodiversidade;

11.Que deve ser incrementada a inserção da ABA e da SOCLA nos diversos fóruns de discussão das políticas públicas sobre as grandes questões de interesse da sociedade, tais como estratégias de desenvolvimento, biossegurança, segurança e soberania alimentar, reforma agrária, etc;

12.A necessidade de incrementar os investimentos públicos em programas e projetos de apoio à transição agroecológica, à agricultura urbana e à agricultura familiar camponesa;

13.O imperativo de fortalecer as estratégias agroecológicas para a construção de uma matriz energética sustentável, ancorada em energias eólicas, hidroelétricas de pequeno porte, solar e biomassa, alternativa à atual matriz que tem como base o uso do petróleo, para o fortalecimento da agricultura familiar camponesa, evitando a expansão dos agrocombustíveis que substituem a produção de alimentos e
comprometem biomas e populações locais;

14.Que é fundamental para a humanidade manter os centros de origem das espécies cultivadas livres de organismos transgênicos e impedir o patenteamento dos recursos genéticos que permitem o livre intercâmbio
de sementes;

15.Que protestamos veementemente contra o julgamento de valores por parte de membros da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e da Advocacia Geral da União (AGU) afirmados na ação civil pública no 2009.70.00.021057-7/PR e que negam o papel histórico dos agricultores no manejo, melhoramento e conservação da agrobiodiversidade;

16.Que exigimos ao CNS retratação imediata do desacato provocado pela CTNBio/MCT e AGU aos agricultores, em particular, à agricultura familiar;

17.Que somos contra práticas agrícolas, tecnologias, políticas públicas e empresas multinacionais da indústria agroalimentar que comprometem a proteção ambiental, favorecem a desigualdade sócio-econômica, atentam contra a segurança e soberania alimentar, a saúde e a vida, especialmente no que se refere aos transgênicos e aos agrotóxicos;

18.O nosso repúdio às ações da bancada ruralista no Congresso Nacional para a alteração da legislação ambiental que protege os diferentes biomas;

19.Que os participantes do evento destacam sua motivação em compartilhar experiências, debater e, sobretudo, sua disposição para o diálogo entre as ciências e as organizações da sociedade, a colaboração para construir caminhos agroecológicos que permitam cultivar e construir um mundo onde todos possam viver como ensina a vida:
Sem impor nem homogeneizar, mas multiplicar a biodiversidade de seres e culturas, com verdadeiro amor pela sabedoria de nossos povos (Felipe Iñiguez, MAELA).

Curitiba, 12 de novembro de 2009.
Assinam os cerca de 3.800 participantes inscritos no VI Congresso Brasileiro
de Agroecologia e II Congresso Latino-americano de Agroecologia.

Carta_ Agroecologica_Curitiba2009

Carta Agroecológica – Fórum Social Mundial 2009

Belém, 1 de fevereiro de 2009 – Fórum Social Mundial

Esta carta representa a síntese das discussões que ocorreram a partir do dia 28 de janeiro de 2009 no acampamento da Aldeia da Paz e se repetindo nos demais dias do Fórum Social Mundial. Esses encontros reuniram grupos de estudo em Agroecologia do Brasil e América Latina. O foco inicial desses encontros foi a construção coletiva do Congresso Brasileiro de Agroecologia – CBA e do Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia, ambos marcados para novembro desse ano na cidade de Curitiba. Além desses focos, discutimos questões gerais que pautam o movimento agroecológico.

Nós acreditamos que a partir do paradigma da Agroecologia um novo mundo seja de fato possível e necessário. Enquanto hoje a agricultura brasileira vive os reflexos da revolução verde – um modelo químico mecanizado de cultivo –, o cultivo agroecológico propõe a redução, e até o fim do uso de insumos externos, num sistema de plantio que presa pela diversidade de elementos apresentando uma maior complexidade que os cultivos baseados na monocultura. Essa maior complexidade resulta numa necessidade maior de mão de obra no lugar de máquinas, promovendo a fixação do homem no campo, além de garantir a soberania alimentar e produtiva, o que já é observado em experiências positivas com agricultura familiar. Também se mostra uma medida eficiente para recuperação de áreas degradadas, minimizando o desmatamento e restabelecendo a biodiversidade local.

A importância da agricultura familiar se mostra clara em nosso país, pois que a maior parte dos alimentos básicos da nossa dieta é proveniente dessa forma de agrocultivo, que essencialmente se mostra contrário à uniformização e padronização dos sistemas agrícolas, apresentando, portanto, uma forte resistência ao uso de sementes transgênicas e valorizando o uso e proteção das sementes crioulas. A importância do trabalhador campesino é ressaltada na frase usada por grupos do MST: “Se o Campo não roça a cidade não almoça se o campo não planta a cidade não janta”.

O que hoje está sendo reconhecido cientificamente como Agroecologia já foi e é utilizado por comunidades indígenas e outras tradicionais em todo o mundo. Esses saberes milenares devem ser valorizados, bem como a riqueza da diversidade genética de seus cultivares e sementes, sendo também incluídos na categoria de patrimônio da humanidade, juntamente com as áreas de Parques Naturais que já são reconhecidos como tais.

Um exemplo representativo da capacidade que esses conhecimentos tradicionais têm de promover o manejo integrado de culturas em consonância e otimizando os processos naturais que podem ser observados na floresta amazônica, é a chamada Terra Preta Arqueológica – normalmente encontradas nas margens de rios e apresentam uma qualidade excepcional e características próprias de uma região, que recebeu intervenções positivas de comunidades que viveram na região há cerca de 200 a 700 anos atrás. Em Caxiuana, são encontrados 28 sítios privilegiados com essas terras, chamadas popularmente de Terra Preta de Índio. Tomando o exemplo citado, acredita- se que essas terras especiais estão relacionadas a regiões que receberam, cíclica e alternadamente, semeadura e incorporação integral dos produtos vegetais, tal como se faz em sistemas agroflorestais para otimizar o processo que naturalmente acontece em qualquer ecossistema.

Gostaríamos, portanto, de reconhecer a importância do evento – Fórum Social Mundial – como uma oportunidade de reunir diversos grupos de agroecologia em encontros tão produtivos, os quais geraram inclusive a formulação de alternativas que minimizam ainda mais impactos ambientais que um evento deste porte pode acarretar, fortalecendo assim a proposta comprometida com causas socioambientais. Alguns exemplos podem ser citados: distribuição de canecas para os participantes do evento, reduzindo o uso de copos descartáveis e consequentemente a produção de lixo; compra de produtos de origem local para construção da estrutura física do evento, para favorecer os mercados regionais; planejamento consciente do destino dos diferentes resíduos, direcionando- os à devidas usinas de reciclagem.

Finalizamos agradecendo a oportunidade de um encontro tão abrangente de importantes movimentos sociais, todos comprometidos com uma real transformação do planeta em que vivemos. O espaço foi muito rico em termos de troca de conhecimentos e informações de alta relevância para o mundo.

 

Muito Gratos,

GAE – UFRuralRJ; IARA – UFRuralA; FEAB – GeTerra; FEAB – Aranã; Agrovida – UFRB; UFPR – litoral; EVA – UFS; GEAE – UFPR; Ecovida – São Miguel; CPT/RS – UFSM; Capim Limão – UFRJ; GAUFC; GA – UFRuralRJ e EMA – Escola da Mata Atlantica.