CARTA ABERTA DO I ENCONTRO REGIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA DO CENTRO-OESTE

CARTA ABERTA DO I ENCONTRO REGIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA DO CENTRO-OESTE

Entre os dias 25 e 26 de abril ocorreu, em Urutaí-GO, o I Encontro Regional de Grupos de Agroecologia do Centro-Oeste (I ERGA – CO), que inaugurou a semana de atividades da Feira Agro Centro-Oeste Familiar 2016, durante a qual a Agroecologia enquanto paradigma foi muito pautada e debatida. O ERGA é promovido pela Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA Brasil) e realizado coopera-ativamente por pessoas e grupos/núcleos envolvidos com a agroecologia na localidade sede. A ideia dos encontros regionais é criar espaços autônomos de convergência entre pessoas e coletividades agroecológicas a fim de ampliar o enraizamento da REGA nas diversas localidades/regiões, efetivar sua autogestão e constituir/consolidar articulações regionais, fortalecendo contruções, lutas e enfrentamentos locais, em conexão com construções, lutas e enfrentamentos de outras localidades/regiões, bem como com construções, lutas e enfrentamentos de caráter nacional.

O Centro-Oeste brasileiro é atualmente responsável pela maior produção de grãos do país, correspondendo a mais de 40% desta, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, 2015). Ao mesmo tempo, possui o maior número de cabeças de gado entre as regiões, segundo o IBGE (2006). Essa produção agropecuária é baseada no modelo de produção monocultor em larga escala, altamente mecanizado, com uso excessivo de insumos químicos (venenos e fertilizantes) e baixo emprego de mão-de-obra, o que provoca a expulsão de muitxs trabalhadorxs do campo, a concentração de terra e renda, a contaminação e destruição da vida, dos recursos hídricos e do solo e a perda da sócio-biodiversidade, potencializada pelo uso de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) e/ou híbridas, modelo de produção a qual possui baixa (ou nenhuma) produção de alimentos saudáveis para população.

Tal modelo hegemônico de ocupação agrária e de produção de alimentos (ou melhor, muitas vezes tão somente produção de commodities), aliados à apatia social com relação à vida política, assim como à falta de participação no acompanhamento da formulação e execução das políticas públicas, impede o alcance da soberania e autonomia dos povos, agravando o cenário de insegurança alimentar e a desigualdade social. Destaca-se, ainda, a ameaça à memória biocultural das comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas, geraizeiros, povos das águas e das florestas, assentamentos da reforma agrária, dentre outros. Essas memórias são fundamentais para a garantia da Soberania Alimentar e a manutenção dos saberes e sabores tradicionais, tão abundantes e diversos em nossa região e indispensáveis para a reprodução social das comunidades.

A saída do Brasil do mapa mundial da fome (FAO, 2015) representa um importante avanço das políticas publicas de controle da fome e desnutrição no país. Porém, é necessário lembrar que 2% da população brasileira permanece em situação de insegurança alimentar. A ausência de um plano estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) no estado de Goiás é um importante exemplo do descaso e da irresponsabilidade política presente no Centro-Oeste. O atual momento de crise econômica, política e social põe em risco as conquistas e avanços das estratégias e ações de SAN, que devem ser garantidas pela exigibilidade de direitos por parte dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada. Nesse sentido, ressaltamos a importância da garantia de manutenção e execução de programas e políticas a nível governamental e social.

Essa conjuntura é resultado da dominação política do Agronegócio na região, respaldada inclusive pela bancada ruralista no Congresso Nacional. Alceu Cartilho em sua obra “O partido da terra” (2012) apresenta dados constando que nos estados do Centro-Oeste em média 60% dos prefeitos são donos de terras. Esse poder político-econômico-cultural exercido na região é responsável pela manutenção da lógica coronelista que tanto atrapalha o empoderamento e o fortalecimento da autonomia da sociedade civil, incluindo agricultorxs, trabalhadorxs urbanos, estudantes, quilombolas, indígenas e demais comunidades tradicionais, entre tantas outras classes invisibilizadas no processo, dito, ‘democrático’.

Este cenário talvez nos explique o porque grande parte da sociedade fica passiva diante de casos como o lançamento aéreo de veneno em uma escola no município de Rio Verde/GO, intoxicando crianças e professores; a situação no município de Lucas do Rio Verde/MT, um dos maiores produtores de soja do país, onde pesquisas realizadas pela Universidade Federal de Mato Grosso em associação com a Fundação Oswaldo Cruz (2011) constam amostras de leite materno os quais identificaram que 100% das amostras continham ao menos um tipo de princípio ativo contido nos agrotóxicos e, em algumas, até seis tipos; ou mesmo o genocídio que vem ocorrendo com os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, para citar alguns exemplos.

A Agroecologia apresenta-se como uma alternativa a tal modelo excludente e degradante de sociedade, ao buscar compreender e dialogar com as realidades locais, respeitando a vida em toda sua potencialidade e diversidade. A partir de sua multidimensionalidade, que leva em consideração aspectos políticos, econômicos, culturais, sociais e ambientais, porta uma visão holística e integral do ser e do mundo, trazendo novos caminhos capazes de transformar subjetiva e objetivamente a presente situação, na luta por uma vida em comunhão e harmonia entre todos os seres, ao agir em consonância com os ciclos biogeoquímicos do planeta e ao edificar uma ética fundamentada no empoderamento e autonomia dos povos a partir da constituição de um paradigma sociocultural mais justo e igualitário.

Nos eventos da REGA procuramos apresentar, discutir e colocar em prática esse paradigma. Busca-se estabelecer espaços de vivência, diálogo, intercâmbios e formação teórica e prática horizontais, baseados em uma pedagogia compartilhada entre xs participantes, dando prosseguimento e aprimorando uma tradição que há décadas constitui a atuação dos Grupos de Agroecologia inseridos no meio acadêmico que, não encontrando espaço nas universidades e em suas estruturas curriculares, procuravam autonomamente pesquisar/praticar/estudar e construir conhecimentos outros os quais as universidades, hegemonicamente tomadas pela lógica da “Revolução Verde” e do Agronegócio capitalista, não poderiam oferecer. Sendo assim, além do espaço de estímulo à reflexão e debates, temos um laboratório dedicado ao questionamento e desconstrução de paradigmas, bem como à experimentação e à prática de outras formas relacionais, tanto dos seres humanos entre si, como entre estes e as outras formas e manifestações de vida, como com outras manifestações culturais ou com o ambiente que nos cerca. O encontro, assim como a REGA, possuem dinâmicas não-hierárquicas e autogestionárias de organização e atuação, almejando incentivar o compromisso e a responsabilidade coletiva, de cada pessoa (célula) em prol do coletivo (corpo).

Tivemos a presença de pessoas e Grupos/Núcleos de agroecologia de diversas localidades do estado de Goiás e do Distrito Federal, contando também com a participação de grupos do norte do país (Tocantins) e representantes de outras regiões do país. O encontro foi realizado principalmente (mas não só) com o objetivo de identificar os Grupos/Núcleos de agroecologia do Centro-Oeste, promover e fortalecer a articulação entre eles, para desta forma planejar possíveis ações comuns para movimentar o cenário político da região.

Estivemos presentes também durante a Agro Centro-Oeste, na qual a REGA organizou um dia dedicado à Feira de Troca de Sementes Crioulas em conjunto com uma roda de conversa sobre Agrobiodiversidade e Soberania Alimentar, em parceria com agricultorxs, comunidade e outras entidades (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Agroecologia/NEPA e Laboratório de Sementes, ambos do IF Goiano Urutaí, Movimento Camponêns Popular/MCP, Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Agricultura Familiar/NEAF da UFG de Jataí, IFG cidade de Goiás e Núcleo de Agroecologia de Mineiros-GO – UNIFIMES/EMATER). Além disso, participamos da reunião Brasília Agroecológica 2017: Caminhos e o Caminhar, que pautou o X Congresso Brasileiro de Agroecologia, o Congresso Latino Americano de Agroecologia, o IX Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia e V Seminário de Agroecologia do Distrito Federal e Entorno, momento no qual pudemos sintonizar nossas aspirações e sonhar coletivamente os eventos, bem como consolidar a parceria ja existente com a Associação Brasileira de Agroecologia/ABA. No momento foram notórias duas questões em particular, a de que temos que pensar em formas de realizar um evento coerente e próximo da situação do campo, da luta e da organização coletiva, assim como a percepção de que temos muito o que fazer e nos esforçar para estabelecer espaços nos quais xs agricultorxs e povos tradicionais se sintam acolhidxs e à vontade para efetivamente frequentar e participar, e consequentemente co-construir a ciência Agroecológica.

Participamos também de uma roda de conversa sobre as experiências das Caravanas Agroecológicas e Culturais, as quais são potentes ferramentas de articulação e mobilização e possuem a abordagem territorial e o olhar atento às denúncias e anúncios existentes pelos seus percursos. A roda de conversa permitiu aos/às participantes aprofundarem-se mais acerca dos processos de articulação, financiamento e logística relacionados à realização de uma Caravana. As experiências articuladas pelos núcleos dos Estados de GO, MT, MS e Distrito Federal estão cogitados para serem os pontos de partida da primeira Caravana do Centro-Oeste, a qual está prevista para acontecer em julho de 2016.

Outro espaço que marcamos presença, compondo a mesa, foi o II Encontro de Técnicos do Meio Rural, debatendo Juventude, ATER e transição agroecológica, durante o qual estiveram presentes, em sua grande maioria, jovens estudantes de Escolas Familia Agrícola (EFAs). Tal espaço foi importante para trazer à tona a potencialidade que a juventude representa na transformação do campo e da própria sociedade pois é ela, organizada, que tem a energia contestadora para buscar e criar alternativas para a transição agroecologica, favorecendo a resistencia e a manutenção intergeracional camponesa.

Os diálogos e trocas de saberes e experiências proporcionaram importantes análises conjunturais e encaminhamentos de atuação entre os grupos do centro-oeste, gerando uma agenda coletiva e possibilidades de ações sincrônicas e em rede. O evento foi fundamental para uma maior inserção da REGA no Centro-Oeste, bem como um marco para a articulação entre os grupos de agroecologia do centro-oeste. Destacamos uma questão que ficou evidente em muitos espaços, que é a necessidade premente que temos, não só no Movimento Agroecológico mas também em outros movimentos e organizações políticas, de nos unir e organizar para darmos conta das contradições, desafios e dilemas que se apresentam.

A REGA Brasil e a Comissão Organizadora do I ERGA – CO agradecem a acolhida e o apoio por parte do IF Goiano de Urutaí, do NEPA (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Agroecologia) e da cidade de Urutaí e se coloca à disposição para futuras parcerias. Agradecemos também ao apoio da UFG, da Rede de Núcleos de Agroecologia do Centro-Oeste (R-NEA), ao GWATÁ-UEG – Núcleo de Agroecologia e Educação do Campo e ao IFG da Cidade de Goiás. Também agradecemos ao apoio, por meio de doação de alimentos, realizado pela Associação para o desenvolvimento da Agricultura Orgânica (ADAO-GO), pela Natural Alimentos e Gaia Orgânicos, ambas localizadas em Goiânia-GO.

 

Saudações Agroecológicas,
Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil (REGA Brasil)/Articulação Centro-Oeste
Urutaí/GO, 26 de abril de 2016

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