Relato do IX ENGA

        Para quem não pôde estar presente dessa vez, segue um relato detalhado de como foi esse IX Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia!

        Em seu IX Encontro Nacional, entre os dias 12 à 15 de Setembro de 2017, a Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil celebrou, dialogou, circulou, criou, fez rodas de conversa e de capoeira e demonstrou sua capacidade de resiliência nesta edição que convergiu com o VI Congresso Latino Americano de Agroecologia da SOCLA, com o X Congresso Brasileiro de Agroecologia e com o V Seminário de Agroecologia do DF e Entorno, em Brasília, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães.
        O inverno se despedia de Brasília em uma sequidão quente, quando integrantes da REGA desceram no Planalto Central, chegando um mês antes do encontro para construir as estruturas e articular a alimentação agroecológica. Após muitos desafios de comunicação entre a Comissão Organizadora Local do CBA e nossa Comissão Organizadora, o sonho começou a tomar forma A importância política do processo de construção desse ENGA foi marcante e por isso, nesta carta política, vamos apresentar um pouco do que foi organizá-lo, pois diz muito sobre nossa proposta de construção do movimento agroecológico brasileiro no atual momento e nossa proposta do que queremos e o que buscamos construir através da relação teórico-prática.
        Quebrando a tradição regueira de ter seus encontros nacionais focalizados por um Grupo de Agroecologia (GA) local, esse ano tivemos outra forma organizativa. Após buscas e chamados por um grupo local, que no final não apareceu, apenas cinco meses antes do evento foi catalisada uma Comissão Organizadora de membros da REGA de todo país. Através de plataformas de Software Livre como Jitsi e Rise Up, começou o trabalho. É importante ressaltar que a possibilidade do cancelamento do encontro foi debatida, já que os moldes de construção agroecológica, base do nosso processo, estavam comprometidos de várias formas.
        Em Brasília armamos as nossas barracas sobre o concreto, em um enorme galpão cinza, em meio ao Parque da Cidade, realidade que contrasta com os encontros anteriores, sempre em meio às árvores. Os maravilhosos banheiros secos e os chuveiros de baixo custo – característicos dos eventos promovidos pela REGA – foram feitos pelo coletivo Bamboo Sapiens. As estruturas eram móveis e foram doadas ao término do evento à organizações locais. Através da articulação com associações, cooperativas locais e agricultores familiares, se garantiu que 95% do alimento tivesse origem orgânica e agroecológica, nutrindo nossos mais de 500 acampados, em 3 refeições diárias, durante os 4 dias do evento, preparadas em turnos autogestionados que começavam às 4 da matina. O custo da inscrição foi entre 60 a 100 reais por pessoa, dependendo dos lotes e incluíram o camping.
        Além da autogestão no preparo da alimentação, os participantes também foram responsáveis por atividades – comunicação, limpeza e harmonização do ambiente – que variaram de acordo com o dia e a cor da pulseira que lhes foi entregue na inscrição. Os resíduos orgânicos, que somaram quase uma tonelada de composto dos banheiros secos e um pouco mais de uma tonelada de alimentos da cozinha, fecharam seu ciclo corretamente por meio da compostagem em leiras, realizada por oficinas práticas com estudantes do curso de Agroecologia, com a parceira local E-cocôs, responsável pela desmontagem e destinação dos resíduos após o encerramento do encontro/congresso para o Instituto Federal de Brasília – Planaltina.
         Compartilhamos acampamento com os demais movimentos sociais do Campo Unitário, incluindo a Via Campesina, MST, MAB, FETRAF, MMC, CONTAG, FEAB e outros. Essa convergência foi um passo em nosso diálogo com a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e fruto da semente plantada no VIII ENGA – Belém, em 2015. Naquele encontro a REGA construiu junto à Via Campesina uma mística no acampamento, a convidando a participar de nossas culturais e construindo o caminho para que mais uma vez, como no I ENGA, os acampamentos tanto dos movimentos sociais, quanto do ENGA fossem unificados.
        No espaço do Congresso fomos responsáveis pela Geodésica da REGA Brasil, com uma programação autônoma e autogerida montada na Trilha do Saber, área externa do Centro de Convenções com acesso gratuito ao público. Foram realizadas atividades de sistematização do conhecimento coletivo e amadurecimento de debates na rede. O tema deste encontro nacional foi aprofundado na roda de conversa Agroecologia pra que(m)?”. Houve ainda o espaço “REGA – Momento Atual, Desafios e Perspectivas para o Futuro; “Apresentação e Mapeamento Colaborativo da REGA” e nossa cultural “Capoeiragem das Manas”, também presente no “Ato Político”, momento este que pautamos como essencial desde o início da construção do CBA. Participamos da construção do ato com o Campo Unitário e, apesar das dificuldades, a manifestação aconteceu, mesmo que reduzida e deixando muito a desejar. Para nós não existe Agroecologia sem resistência política e desde o ato do CBA Belém, que se concentrou mas não saiu, gostaríamos de salientar a necessidade de entender o caráter consultivo versus participativo dos movimentos sociais nos processos de construção dos CBAs.
        Nas atividades do CBA, onde reafirmamos nossa parceria com a Associação Brasileira de Agroecologia, realizamos com a Via Campesina a Plenária das Juventudes da América Latina pela Agroecologia, que contou com pessoas de diversas origens, entidades e movimentos, entre eles: FEAB, PJR, MPA, MST, CONTRAF, CONAQ, ABEEF, representantes de comunidades quilombolas, indígenas de 3 povos do Mato Grosso, Colômbia, Uruguai, Juventude Comunista da Argentina, Holanda e estudantes e professores de diversas universidades públicas do Brasil. Também tivemos representantes nas atividades “Sem Feminismo não há Agroecologia”; “Feminismo e a Agroecologia: Mulheres em luta contra a violência sexista” que debateram entre outros pontos importantes, como formar diálogos entre mulheres dos vários segmentos da luta, de modo que se possa discutir como é o feminismo para diferentes classes, diferentes idades e culturas. Realizamos também em parceria com a Embrapa, a Rede Internacional Sementes da Liberdade e a ANA, o Encontro Internacional de Guardiões e Guardiãs de Sementes Crioulas com a ilustre presença de nossos convidados da CicloVida com Ivânia e Inácio, do Ceará, que compartilharam o acúmulo sobre sementes crioulas e trouxeram o debate da autonomia e da garantia de alimentos saudáveis, livres dos transgênicos e agrotóxicos.
        Assim, trabalhando os princípios da Rede: Anticapitalismo, Autonomia, Autogestão, Horizontalidade, Decisão por consenso e Coerência teoria-prática, ergueu-se a estrutura metodológica para nossos espaços. Durante o encontro, reforçamos também nossa re-existência, semeando mentes livres e buscando mais uma vez nos colocarmos de forma ativa na construção biodiversa de um caminho combativo e resiliente.
Brasília, 2017
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