Princípios

Anticapitalismo

Agroecologia enquanto resistência, luta e estratégia para a transformação radical da sociedade

Entendemos que o capitalismo é uma forma de organização da sociedade que se baseia na exploração e dominação de uma maioria de seres humanos por uma minoria. Entendemos também que a destruição da natureza é consequência da apropriação dos recursos naturais por esta minoria privilegiada, responsável por uma exploração inconsequente e desenfreada em busca de lucro e de poder. O capitalismo expande-se por todo o planeta, fundado na reprodução da desigualdade, na competitividade, no consumismo, no individualismo, no egocentrismo, no controle, na hierarquia, no patriarcado e na concentração de poder, recursos e informação. Tal sistema é também responsável pela negação de qualquer outra forma de organização social, passando por cima de povos inteiros, sufocando potencialidades inimagináveis da diversidade cultural humana.

Esse sistema não permite que a vida humana floresça em sua plenitude. Por isso, devemos concentrar nossos esforços na busca ativa por sua destruição,  na construção do poder popular, e na co-criação de uma sociedade em que não existam divisões entre classes sociais, entre exploradores e explorados, entre oprimidos e opressores, entre dirigentes e dirigidos.  Uma sociedade em que a diversidade humana seja saudada e valorizada, e na qual o trabalho volte a ser fonte de criação e de desenvolvimento de potência humana. Uma sociedade autogestionada em todas as suas dimensões, em que prevaleça a cooperação, a solidariedade, a liberdade, a coletividade, a vida, o respeito pela terra e pela natureza, e a socialização dos recursos naturais entre todos os seres.

Autonomia

Agroecologia pela construção da autonomia e liberdade coletivas

Entendemos que o exercício da autonomia é algo central para construir e praticar a liberdade, sempre entendidas de forma coletiva. Internamente, buscamos exercitar a autonomia de cada integrante da REGA, para que todos sintam-se igualmente confiantes para trocar conhecimentos, questionar, propor, falar e praticar. Entendemos que a circulação das informações é essencial para não haver qualquer espécie de manipulação ou alienação sobre as ações da rede. Além disso, a REGA não estabelecerá relações de subordinação ou dependência com quaisquer instituições ou organizações externas, seja econômica, social ou politicamente.

Autogestão

Agroecologia enquanto trabalho coletivo e produção da vida comunitária

A autogestão nasce historicamente a partir de diversas lutas de trabalhadores, com a criação de relações sociais opostas às vigentes na sociedade capitalista. Fundamenta-se na eliminação da separação entre dirigentes e dirigidos; na abolição da representação por delegação de poder; na eliminação da separação entre poder de decisão e poder de execução; e na eliminação da separação entre trabalho intelectual e trabalho manual. Entendemos a autogestão como a maneira de colocar em prática a autonomia e a horizontalidade, tendo em vista que todas as pessoas são capazes de gerir coletivamente todas as dimensões produtivas da vida.

Na REGA, todas as pessoas têm a responsabilidade de pensar, se prontificar, e realizar todos os tipos de tarefa, trabalhando coletivamente pelo bem comum. Os encontros da rede são autogeridos por todos os seus participantes, como um exercício prático destas relações sociais baseadas no comprometimento e na responsabilidade coletiva.

Horizontalidade

Agroecologia pelo fim das hierarquias

Entendemos que todos os espaços deliberativos devem ser abertos para que todas as pessoas possam participar diretamente da elaboração dos acordos fundamentais, da estrutura organizativa, da linha de atuação política e das tomadas de decisão da REGA. Por isso, não temos instâncias de delegação de poder através de mandatos ou posições cristalizadas, e muito menos hierarquias. Toda vez que se fizer necessário delegar tarefas ou representações, os nomes para executá-las partirão sempre das bases e do acúmulo coletivo. As pessoas responsáveis serão enzimas catalisadoras, apenas executoras provisórias daquelas tarefas, não podendo definir linhas de ação ou tomar decisões individualmente. Os limites de atuação e responsabilidades serão definidos com clareza pela coletividade. A composição dos grupos de trabalho e representatividades será sempre rotativa, pressupondo iniciativa e autonomia de integrantes da REGA para aprender novas habilidades, assumir tarefas, propor debates e soluções de forma ativa e co-responsável.

Decisão por consenso

Agroecologia valorizando a pluralidade e o diálogo de saberes

Entendemos que as decisões feitas por votação, dentro de um “sistema democrático de maioria” emudece opiniões divergentes. Acreditamos que uma “maioria” pode se formar em torno de um interesse comum, mas não necessariamente representará o melhor para a coletividade, caso passe por cima de todo um grupo descontente com aquela decisão.

Em todas as nossas discussões, almejamos chegar ao consenso, de forma que as deliberações sejam feitas apenas após amplos debates, respeitando a circularidade de falas e promovendo um diálogo franco e aberto entre visões divergentes. Essa disposição exige que todos nós exercitemos uma escuta atenta, em que haja, acima de tudo, profundo respeito pela argumentação alheia. Além disso, exige que todas as partes se comprometam a discutir de maneira genuína e propositiva, com humildade para mudar de opinião, ceder, reformular propostas, colocando o bem daquela coletividade acima de posicionamentos ou interesses individuais. Busca-se assim contemplar a heterogeneidade de vozes, o que é essencial dentro de uma rede tão diversa.

Diversas metodologias vêm sendo utilizadas ao longo do histórico da REGA, que auxiliam na chegada ao consenso. A votação pode ser utilizada em último caso e de forma bastante responsável, como uma ferramenta para não paralisar processos, se o balanço geral for a favor desta alternativa.

Coerência teoria e prática

Agroecologia enquanto coerência

Assim como não deve haver separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, entendemos que não deve existir separação entre teoria e prática. Nossa prática deve alimentar nossa teoria, e nossa teoria deve alimentar nossa prática, constantemente. Buscamos não priorizar o conhecimento teórico em detrimento do conhecimento prático, e vice-versa, compreendendo-os como complementares.

Desta forma, as estruturas físicas e metodológicas de todos os nossos encontros, bem como todas as ações promovidas pela REGA, devem manter a coerência com nossos princípios e com o que entendemos por Agroecologia.

 

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