Cartas Agroecológicas

CARTA ABERTA DO VII ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA

CARTA ABERTA DO VII ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA

Chegamos na terra de Belo Monte e Eldorado dos Carajás – localidade onde ocorreu o massacre à camponesxs, que anualmente lembramos e lutamos no dia 17 de Abril, o Dia Internacional da Luta Camponesa. Terra de tantas Marias e Joãos historicamente submetidxs, marginalizadxs e chacinadxs. Amazônia, última fronteira ao avanço Civilizatório/Patriarcal e Capitalista que subjugam, dominam, matam e exploram. A lógica da usurpação – mineração e agronegócio, extração de matéria-prima e exploração dos saberes e a mão-de-obra local, os infindos e exaustivos ciclos de miséria e escassez generalizada. Fundamentos políticos nefastos que se impõem historicamente a ferro e fogo e que se arrastam há milênios com sua mentalidade hierárquica – proprietária/patrimonial classista restritivas. Estes são alguns esboços dos desafios que se colocam para a atuação e articulação no amplo território paraense (e amazônico), que todavia apresentam problemáticas em comum com as lutas travadas em outras territorialidades.

Semear a liberdade, autogerir, assumir a responsabilidade coletiva, questionar e desconstruir paradigmas e arregaçar as mangas para construir um todo que acolha, respeite e aprenda com a diversidade. Refletir, re-significar o olhar acerca de como as coisas podem ser nesse mundo, perceber nossos padrões, escolher e re-existir. O ENGA é um encontro construído pela Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil – REGA Brasil, uma rede que nasce de pessoas e grupos que praticam a Agroecologia e, a partir de uma tomada de consciência, percebem que se ver nx outrx pode fazer a diferença para forjar o mundo que acreditam, fortalecendo assim a construção desse movimento de transformação. O processo de construção do evento, bem como a dinâmica da rede, é uma forma da REGA materializar seus objetivos, de incentivar a emancipação e a autonomia do ser humano de qualquer forma de dominação e opressão que os tabus alimentados milenarmente pelo Patriarcado, que modernamente se manifesta via Sistema Capitalista, têm exercido na sociedade.

A partir da dedicação em estabelecer um diálogo mais próximo com as comunidades locais afim de compreender e dar visibilidade a suas principais pautas, foi com muita gratidão que recebemos em nossa geodésica de bambu, construída dentro do Hangar, o Territorio das Juventudes e espaço do ENGA junto ao IX CBA, sentadxs em roda, olhando olho no olho, representantes dessas comunidades para debater Territórios e Territorialidades, Gênero e Feminismo e Racismo Religioso. Os diálogos foram realizados com as lideranças de povos da floresta, erveiras, mulheres empoderadas, feirantes, movimento negro e agricultoras da reforma agrária baseando-se nas principais demandas e conflitos destxs agentes locais.

É evidente a percepção desses agentes quanto às limitações na relação com o Estado, fazendo com que priorizem a ação direta através da auto-organização coletiva. Percebe-se uma tendência de radicalização na luta através de estratégias mais combativas na defesa dos bens comuns socioambientais sendo que a luta institucional aparece como uma ferramenta complementar na conquista de suas pautas.

Reconheceu-se a necessidade do enfrentamento ao machismo dentro dos movimentos sociais e dificuldades com os próprios companheiros de luta, incluindo a violência doméstica em diversos níveis.

Apesar da alegria e do brilho dos nossos olhos o tempo é de profunda tristeza. Os povos originários do Brasil não só estão – propositalmente – esquecidos, mas são massacrados. Precisamos discutir e pensar em estratégias imediatas para garantir a sobrevivência dos povos que visceralmente fazem agroecologia, como por exemplo os Guarani-Kaiowa, que com seu sangue tem resistido em defesa da Mãe Terra. Sim, a força dos povos originários está aqui presente, mas muito ainda temos que avançar, enquanto Movimento Agroecológico, na aproximação com as questões indígenas, que ainda são muito incipientes. As diferentes comunidades tradicionais do Brasil são destruidas pelas estratégias empresariais que as colocam como meros refugos dos recursos naturais, sem consciência e direitos. Denunciamos aqui a perpetuação do projeto fundamentalista cristão repaginado hoje nas igrejas pentecostais, braço ideológico do neoliberalismo, que devasta e demoniza nossas raízes culturais. Exemplificamos os ataques sistemáticos e a desterritorialização dos Povos de Terreiros, Povos Amazônicos, Quilombolas, Quebradeiras de Coco Babaçu, Caiçaras, Ribeirinhos e Extrativistas que, sim, são invisibilizados enquanto atorxs que enraízam, cultivam e criam em sintonia com a Mãe Terra. Enfatizamos a importância de uma mais maior presença Indígena, dos Povos da Floresta, dos Povos dos Maretorios*, Povos de Terreiro, Movimento Negro, Erveiras, Camponesxs, entre outras identidades, nos espaços acadêmicos e técnico-científicos como o CBA e nos de construção das políticas agroecológicas, pois sem estas vozes não podemos dizer que estamos edificando a Agroecologia. É necessário que pensemos, discutamos e, principalmente, executemos estratégias imediatas para garantir os direitos territoriais, a soberania alimentar e a diversidade étnico-cultural desses povos.

Não haverá Agroecologia sem que reconheçamos nossas raízes e ouçamos as vozes de quem sempre a viveu cotidianamente.

Celebramos os avanços metodológicos do CBA, assim como mais esta construção conjunta e complementar junto ao ENGA e à REGA Brasil. Desde a realização do I ENGA em Curitiba, em 2009, a relação dos ENGAs com os CBAs, quando simultâneos, tem sido forjada conforme amadurecemos as identidades de cada um dos espaços. De forma semelhante, temos percebido avanços importantes nos CBAs, a exemplo das apresentações de trabalhos virem se consolidando como espaços mais dialógicos e plurais, bem como o próprio reconhecimento e exercício dos ENGAs enquanto espaços de (re)construção dos conhecimentos e das práticas agroecológicas, todavia ainda temos muito o que avançar para uma maior integração entre ambos os eventos, assim como entre as diferentes organizações – ABA e REGA, bem como há muito o que fazer, uma vez que os espaços, os processos e as dinâmicas pelos quais o evento tem sido realizado expressam muito sua intenção e forma, manifestando sua abertura ou não para diferentes coletividades e sua potencialidade ou limitação para reais transições agroecológicas.

Com intenção de dialogar, afinar perspectivas de atuação e de trocar experiências, diferentes setores da juventude que compõem o campo agroecológico nacional estiveram juntos em uma roda de prosa com o tema “Juventudes e Agroecologia: desafios ao protagonismo Juvenil”, um momento importante para a REGA em que buscamos aprender com as outras organizações da juventude e compartilhar nossos acúmulos organizativos, dialogando, assim, nossas perspectivas políticas. Hoje a REGA é responsável pela gestão do GT Juventudes da ABA e nessa roda de conversa pudemos dialogar a ocupação desse espaço como uma estratégia de articulação e atuação conjunta – porque somos Futuro, mas antes, e como um primeiro entendimento compartilhado, afirmamos: as Juventudes são o Presente!

No tocante às políticas públicas, defendemos os Pontos de Agroecologia como uma proposta da REGA para a democratização e descentralização da gestão da II PLANAPO, o que para nós se configura em ação de empoderamento das pessoas e coletivos informais que cotidianamente constroem a agroecologia nos mais diferentes teritórios do campo e da cidade. Com relação à nossa atuação, damos destaque às campanhas da REGA que são as principais estratégias de articulação e mobilização em rede durante todo o ano, são elas: o Maio Agroecológico, o Plante o ENGA, as Caravanas Agroecológicas, as Micorrizas, as Feiras de Trocas de Sementes Crioulas e o apoio a Campanha Permanente Contra o Uso dos Agrotóxicos e pela Vida.

Compreendemos que o convite para uma maior contribuição da REGA para a organização do CBA 2017 já expressa que a construção mais integrada de ambos os eventos é uma vontade compartilhada. Desse modo, queremos dialogar no intuito de somar forças para trabalhar na prática essas contradições e amadurecer a identidade de cada um sem interferir em nossa autonomia. Nesse contexto, firmamos aqui o convite para a Transição Agroecológica do X CBA em Brasília rumo ao bem viver.

Reunidxs também no acampamento do VII Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia, no Campus da UFRA na área do grupo IARA, cerca de 400 participantes celebramos juntxs outras formas de conviver, compartilhar e se relacionar. Em nossos encontros buscamos ao máximo coerência entre nosso discurso e prática e damos ênfase em viabilizar recursos financeiros por meio do autofinanciamento. Diante do contexto desafiador que se apresentou infelizmente não conseguimos manter uma proposta praticada nos encontros da Rede que é o de nos alimentarmos da produção local e agroecológica. Nossa estratégia de superação foi então buscarmos alimentos por meio da prática do carapirá* no CEASA, reduzindo, mesmo que minimamente e de forma pontual, o desperdício. Participantes do encontro se organizaram diariamente de maneira rotativa para coletar os alimentos de madrugada e para o preparo das refeições servidas no encontro. Os produtos de higiene artesanais utilizados no espaço do acampamento foram fabricados com bases ecológicas, sendo disponibilizados sabonetes, pó dental e repelente para todxs xs participantes. Os resíduos gerados foram tratados com a utilização de banheiros secos, além da separação dos recicláveis e compostagem dos resíduos orgânicos. Vivenciamos momentos de intensas trocas, aprofundamos e partilhamos nossas reflexões, dentre elas o não acesso da juventude negra se refletindo na estrutura da REGA, onde tanto nas plenárias quanto nos espaços de discussão, a maior parte dos negros e negras presentes no espaço se encontravam figurados em fotos que ornamentavam a geodésica. Na tentativa de quebras de tabus, na expressão máxima do ser coletivo, compartilhamos espaços mistos de banho com a lua cheia. Dessexualização*** dos corpos, questionamento e desconstrução na prática de valores, moral e costumes impostos: juntxs contemplamos o eclipse lunar e intensificamos ainda mais nossos processos reflexivos e de transformação coletiva.

Por fim, temos consciência dos desafios que nos são apresentados, numa sociedade profundamente marcada pelas relações regidas por uma governança pautada na representatividade verticalizada, da qual ainda estamos dependentes e reféns. Esperamos que o encontro proporcione um espaço formativo e um laboratório e incubador para a experimenta-ação de praticas sociais e organizativas outras e que essa vivência reverbere nas pessoas e coletividades agroecológicas em suas práticas cotidianas e alavanque as mudanças que desejamos construir no mundo.

Saravá mamãe xoxota!!!

Belém do Pará, 01 de outubro de 2015
REGA Brasil (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil)

* Denominação que os comunitários de RESEX dão aos territórios marinhos

** Expressão regional para xepa ou recicle, ou seja, o aproveitamento e a re-ciclagem dos alimentos que seriam jogados fora em feiras, CEASA, mercados, etc.

*** Questionamos inclusive o conceito vigente de sexualidade que possui uma compreensão restrita meramente à reprodução, às genitálias e ao coito. Reivindicamos uma compreensão mais abrangente de sexualidade, que envolva o sistema corporal como um todo, incluindo suas pulsões, a libido e a bioenergia em interação com nossos sentimentos, emoções, afetos e as diferentes formas e âmbitos de relação social.

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CARTA AGROECOLÓGICA DE PORTO ALEGRE 2013

Com o tema “Agroecologia: cuidando da saúde do planeta”, o VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia reuniu-se em Porto Alegre no período de 25 a 28 novembro de 2013 para refletir sobre o momento atual e os desafios da agroecologia. A escolha deste tema reflete a constatação da existência de uma crise de dimensões globais de caráter sistêmico e multidimensional que se alastra e se aprofunda como resultado da reprodução ampliada de um padrão de desenvolvimento fundado no consumo insustentável de bens da natureza e na acentuação de desigualdades sociais. A configuração dos modernos sistemas agroalimentares, caracterizados pela extremada artificialização dos processos produtivos e pelo crescente afastamento entre a produção e o consumo de alimentos é um dos fatores determinantes dessa crise. Os promotores e principais beneficiários dessa crise são corporações empresariais que exercem seu poder político e ideológico sobre instituições do Estado no sentido de criar as condições para ampliar seu controle sobre os processos de produção e consumo alimentar, viabilizando desta forma sua estratégia de reprodução ampliada do capital à revelia dos impactos negativos sobre a saúde, o ambiente e da crescente degradação das relações sociais, em especial no que tange às relações de gênero, étnicas, raciais e geracionais. As promessas tecnológicas anunciadas por essas corporações, bem como os marcos institucionais -na linha da economia verde- por elas impostos têm contribuído para agravar a crise que se revela em diferentes formas de violência e opressão.

O modelo de educação vigente permanece seguindo uma concepção de produção de conhecimento cartesiana e tecnicista, sem levar em consideração os saberes historicamente acumulados pelos agricultores e agriculturas familiares camponeses e as inúmeras iniciativas educativas que tem como enfoque a Agroecologia que emergem no Brasil.

É inequívoco o fato de que uma consciência social crítica frente a esse cenário começa a exigir mudanças radicais no modelo de desenvolvimento e de relacionamento humano. Embora as pressões da sociedade venham permitindo alguns avanços institucionais importantes, que devem ser reconhecidos e celebrados, essas conquistas são ainda largamente insuficientes face à magnitude da crise socioambiental. É diante desse contexto que celebramos o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica como uma conquista da mobilização social. Permaneceremos mobilizados para assegurar sua imediata implementação. Ao mesmo tempo, continuaremos mobilizados para que o seu escopo seja ampliado.

Tendo em vista que os efeitos negativos desse modelo já alcançam dimensões inaceitáveis, muitas vezes com a geração de danos socioambientais irrecuperáveis, tornam-se imperativas iniciativas mais potentes com capacidade de mobilização social para enfrentar estruturalmente a crise desde a esfera local até o âmbito internacional. Diante desse quadro, os 4.448 participantes do VIII CBA-Agroecologia manifestam o que se segue:

Com relação a organismos geneticamente modificados e agrotóxicos

Repudiamos as iniciativas que visam retirar poderes deliberativos do Ibama, Mapa e Anvisa na análise de OGMs e agrotóxicos. Ao contrário, reinvindicamos que a CTNBio volte a atuar como uma instância de caráter consultivo submetida a esses órgãos. Cobramos também o cumprimento da Lei de rotulagem de OGMs e apoiamos a iniciativa em discussão na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul com vistas à rotulagem de alimentos produzidos com o uso de agrotóxicos.

Reivindicamos imediata modificação nos critérios de formação e operação da CTNBIO, com responsabilização jurídica de seus membros pelas consequências/impactos (econômicos, sociais, na saúde e ambientais) de decisões relativas à liberação de OGMs. Cobramos transparência nos processos decisórios e a realização de audiências públicas no caso de novas tecnologias e de avaliações dos monitoramentos pós liberação comercial.

Exigimos incorporação de critérios socio-econômicos nas avaliações de risco envolvendo OGMs, e que só sejam apoiadas pelas políticas públicas aquelas tecnologias que contribuam efetivamente para processos de desenvolvimento sustentável. Além disso, reinvindicamos que os OGMs sejam excluídos de políticas voltadas à agricultura familiar. Exigimos a manutenção da moratória aos OGMs com tecnologia GURT (terminator) e o endosso ao protocolo de Nagoya/Kuala Lumpur que trata da responsabilização dos agentes/atores contaminantes com OGMs e das normas de compensação de agentes/atores contaminados.

As áreas prioritárias para conservação da biodiversidade bem como suas áreas de amortecimento devem ser decretadas como territórios livres de transgênicos e agrotóxicos. Os territórios em que existe presença relevante de sementes crioulas devem ser mapeados e protegidos contra a contaminação transgênicas. O Estado deve apoiar a constituição e consolidação de redes sociais atuantes na conservação da agrobiodiversidade de âmbito territorial.

Com relação à construção do conhecimento

Afirmamos a necessidade da implementação e da ampliação do eixo de Conhecimento do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

Reivindicamos que os princípios e diretrizes sistematizados no I Seminário Nacional de Educação em Agroecologia , sejam adotados como referencial orientador das experiências de educação em agroecologia, e das ações de Educação realizadas pelos vários níveis de governo.

Reivindicamos que as instituições de pesquisa e extensão internalizem os princípios da Agroecologia, organizando grupos de pesquisa e extensão, contratando e formando professores e pesquisadores para atuação profissional a partir da perspectiva agroecológica e alocando os recursos necessários ao cumprimento de projetos que articulem o conhecimento cientifico-acadêmico ao conhecimento popular-cultural das agriculturas familiares camponesas. Reivindicamos também a ampliação dos editais de inovação tecnológica, educação, pesquisa e extensão junto à agricultura familiar, visando o fortalecimento de processos e estratégias produtivas referenciados na Agroecologia.

Em relação às mulheres

Reafirmamos a importância de espaços estratégicos de formação, articulação e produção do conhecimento e das práticas agroecológicas realizadas pelas mulheres, integrando a abordagem de gênero e feminismo.

Reafirmamos a importância do reconhecimento das mulheres como geradoras de conhecimento, processos e atividades de base agroecológica. Reivindicamos espaços e instrumentos que assegurem recursos e políticas, bem como pesquisas que estimulem, viabilizem e confiram visibilidade à ação protagonista das mulheres no processo de desenvolvimento sustentável.

Em relação a políticas públicas estruturantes

Reivindicamos que o Programa de Aquisição de Alimentos seja ampliado e consolidado e que a Reforma Agrária seja retomada a partir da perspectiva agroecológica.

Porto Alegre, 28 de novembro de 2013

Carta Agroecológica de Curitiba 2009

Carta Agroecológica de Curitiba 2009
VI Congresso Brasileiro de Agroecologia e
II Congresso Latino-americano de Agroecologia

Os cerca de 3.800 participantes inscritos no VI Congresso Brasileiro de Agroecologia e II Congresso Latino-americano de Agroecologia, reunidos em
Curitiba (PR), Brasil, no período de 9 a 12 novembro de 2009, tendo como tema central “Agricultura familiar e Camponesa: experiências passadas e presentes construindo um futuro sustentável” vêm através da presente afirmar o que segue:

A agricultura latino-americana e brasileira passam por uma crise sem precedentes caracterizada por níveis recordes de pobreza rural, fome, migração, degradação ambiental, intensificada pelas mudanças climáticas e as crises energética e financeira. O modelo agrícola industrial exportador e a expansão de monocultivos de transgênicos e de agrocombustíveis e do uso intensivo de agrotóxicos são diretamente responsáveis por essa crise. Está claro que esse modelo convencional é inviável e que a Agroecologia fornece as bases científicas e metodológicas para as estratégias de transição a um novo paradigma de desenvolvimento. A base cultural, social e produtiva desse novo paradigma está, especialmente na agricultura familiar camponesa, fonte fundamental de saber agrícola tradicional, de agrobiodiversidade e de estratégias de segurança e soberania alimentar.

Considerando o acima exposto, reafirmamos:

1. O papel da Agroecologia para a mudança de paradigma de
desenvolvimento capaz de construir uma agricultura biodiversa, de base
familiar camponesa e resiliente às mudanças climáticas;

2. O compromisso da Agroecologia em transformar essa realidade de
iniqüidade do campo, promovendo o desenvolvimento rural e a
construção de um mundo mais justo, solidário e ambientalmente
sustentável;

3. A importância da adoção do enfoque científico da Agroecologia, cuja
base epistemológica pressupõe o intercâmbio dos saberes técnicocientífico
e popular;

4. O reconhecimento da importância da agricultura familiar camponesa e dos saberes dos povos indígenas e tradicionais para assegurar o fortalecimento do tecido social e da identidade cultural dos povos latinoamericanos, incluindo o acesso a terra, sementes e água e o direito à segurança e soberania alimentar;

5. A necessidade de reconhecimento dos saberes e experiências das mulheres nas suas práticas ligadas à reprodução da vida: segurança e soberania alimentar, saúde, manutenção e conservação da agrobiodiversidade. Que suas reivindicações e demandas sejam valorizadas por extensionistas, pesquisadores, gestores e lideranças;

6. A importância de contemplar o tema das relações de gênero, evidenciando a necessidade de valorizar as contribuições das mulheres e as questões que dificultam a sua participação como sujeitos plenos de direitos, entre elas, a violência cotidiana enfrentada pelas agricultoras;

7. A importância do I Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia (I ENGA) realizado durante o congresso, onde se reuniram mais de 40 Grupos de Agroecologia (GA’s) de várias localidades do Brasil, com ou sem vínculo acadêmico, contando com mais de 500 participantes de executivas de curso (Federação dos estudantes de Agronomia do Brasil, Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal e Entidade Nacional dos Estudantes de Biologia), da Via Campesina e da Rede de Arte Planetária (RAP). Durante o encontro colocaram em
prática princípios da Agroecologia como bioconstruções, sanitários ecológicos, feiras de trocas, oficinas, debates, entre outros e cumpriram com seus objetivos: construção de uma Rede entre os GA’s proporcionando espaços de intercâmbio entre os diversos participantes;

8. O nosso apoio às estratégias de educação em Agroecologia em todos os níveis, bem como a produção científica e tecnológica e os respectivos meios de disseminação, para fortalecer o diálogo com o conjunto dos conhecimentos necessários à construção do conhecimento agroecológico e a formação de uma massa crítica capaz de enfrentar os desafios do futuro;

9. Que se deve ampliar as políticas públicas e as estratégias de pesquisa, de extensão e de desenvolvimento científico e tecnológico de promoção dos princípios da Agroecologia, incluindo-os como referência teórica e metodológica nas instituições, valorizando e respeitando as singularidades territoriais, promovendo a cidadania e o desenvolvimento rural sustentável;

10.A necessidade de fortalecer e ampliar os mecanismos de interação, intercâmbio e cooperação da ABA e da SOCLA com instituições da sociedade civil organizada, com vistas às atividades de produção, ensino, pesquisa, extensão e construção do conhecimento agroecológico, em consonância com as demandas emergentes de
estratégias de adaptação às mudanças climáticas, uso sustentável dos recursos energéticos e hídricos e manutenção da biodiversidade;

11.Que deve ser incrementada a inserção da ABA e da SOCLA nos diversos fóruns de discussão das políticas públicas sobre as grandes questões de interesse da sociedade, tais como estratégias de desenvolvimento, biossegurança, segurança e soberania alimentar, reforma agrária, etc;

12.A necessidade de incrementar os investimentos públicos em programas e projetos de apoio à transição agroecológica, à agricultura urbana e à agricultura familiar camponesa;

13.O imperativo de fortalecer as estratégias agroecológicas para a construção de uma matriz energética sustentável, ancorada em energias eólicas, hidroelétricas de pequeno porte, solar e biomassa, alternativa à atual matriz que tem como base o uso do petróleo, para o fortalecimento da agricultura familiar camponesa, evitando a expansão dos agrocombustíveis que substituem a produção de alimentos e
comprometem biomas e populações locais;

14.Que é fundamental para a humanidade manter os centros de origem das espécies cultivadas livres de organismos transgênicos e impedir o patenteamento dos recursos genéticos que permitem o livre intercâmbio
de sementes;

15.Que protestamos veementemente contra o julgamento de valores por parte de membros da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e da Advocacia Geral da União (AGU) afirmados na ação civil pública no 2009.70.00.021057-7/PR e que negam o papel histórico dos agricultores no manejo, melhoramento e conservação da agrobiodiversidade;

16.Que exigimos ao CNS retratação imediata do desacato provocado pela CTNBio/MCT e AGU aos agricultores, em particular, à agricultura familiar;

17.Que somos contra práticas agrícolas, tecnologias, políticas públicas e empresas multinacionais da indústria agroalimentar que comprometem a proteção ambiental, favorecem a desigualdade sócio-econômica, atentam contra a segurança e soberania alimentar, a saúde e a vida, especialmente no que se refere aos transgênicos e aos agrotóxicos;

18.O nosso repúdio às ações da bancada ruralista no Congresso Nacional para a alteração da legislação ambiental que protege os diferentes biomas;

19.Que os participantes do evento destacam sua motivação em compartilhar experiências, debater e, sobretudo, sua disposição para o diálogo entre as ciências e as organizações da sociedade, a colaboração para construir caminhos agroecológicos que permitam cultivar e construir um mundo onde todos possam viver como ensina a vida:
Sem impor nem homogeneizar, mas multiplicar a biodiversidade de seres e culturas, com verdadeiro amor pela sabedoria de nossos povos (Felipe Iñiguez, MAELA).

Curitiba, 12 de novembro de 2009.
Assinam os cerca de 3.800 participantes inscritos no VI Congresso Brasileiro
de Agroecologia e II Congresso Latino-americano de Agroecologia.

Carta_ Agroecologica_Curitiba2009

Carta Agroecológica – Fórum Social Mundial 2009

Belém, 1 de fevereiro de 2009 – Fórum Social Mundial

Esta carta representa a síntese das discussões que ocorreram a partir do dia 28 de janeiro de 2009 no acampamento da Aldeia da Paz e se repetindo nos demais dias do Fórum Social Mundial. Esses encontros reuniram grupos de estudo em Agroecologia do Brasil e América Latina. O foco inicial desses encontros foi a construção coletiva do Congresso Brasileiro de Agroecologia – CBA e do Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia, ambos marcados para novembro desse ano na cidade de Curitiba. Além desses focos, discutimos questões gerais que pautam o movimento agroecológico.

Nós acreditamos que a partir do paradigma da Agroecologia um novo mundo seja de fato possível e necessário. Enquanto hoje a agricultura brasileira vive os reflexos da revolução verde – um modelo químico mecanizado de cultivo –, o cultivo agroecológico propõe a redução, e até o fim do uso de insumos externos, num sistema de plantio que presa pela diversidade de elementos apresentando uma maior complexidade que os cultivos baseados na monocultura. Essa maior complexidade resulta numa necessidade maior de mão de obra no lugar de máquinas, promovendo a fixação do homem no campo, além de garantir a soberania alimentar e produtiva, o que já é observado em experiências positivas com agricultura familiar. Também se mostra uma medida eficiente para recuperação de áreas degradadas, minimizando o desmatamento e restabelecendo a biodiversidade local.

A importância da agricultura familiar se mostra clara em nosso país, pois que a maior parte dos alimentos básicos da nossa dieta é proveniente dessa forma de agrocultivo, que essencialmente se mostra contrário à uniformização e padronização dos sistemas agrícolas, apresentando, portanto, uma forte resistência ao uso de sementes transgênicas e valorizando o uso e proteção das sementes crioulas. A importância do trabalhador campesino é ressaltada na frase usada por grupos do MST: “Se o Campo não roça a cidade não almoça se o campo não planta a cidade não janta”.

O que hoje está sendo reconhecido cientificamente como Agroecologia já foi e é utilizado por comunidades indígenas e outras tradicionais em todo o mundo. Esses saberes milenares devem ser valorizados, bem como a riqueza da diversidade genética de seus cultivares e sementes, sendo também incluídos na categoria de patrimônio da humanidade, juntamente com as áreas de Parques Naturais que já são reconhecidos como tais.

Um exemplo representativo da capacidade que esses conhecimentos tradicionais têm de promover o manejo integrado de culturas em consonância e otimizando os processos naturais que podem ser observados na floresta amazônica, é a chamada Terra Preta Arqueológica – normalmente encontradas nas margens de rios e apresentam uma qualidade excepcional e características próprias de uma região, que recebeu intervenções positivas de comunidades que viveram na região há cerca de 200 a 700 anos atrás. Em Caxiuana, são encontrados 28 sítios privilegiados com essas terras, chamadas popularmente de Terra Preta de Índio. Tomando o exemplo citado, acredita- se que essas terras especiais estão relacionadas a regiões que receberam, cíclica e alternadamente, semeadura e incorporação integral dos produtos vegetais, tal como se faz em sistemas agroflorestais para otimizar o processo que naturalmente acontece em qualquer ecossistema.

Gostaríamos, portanto, de reconhecer a importância do evento – Fórum Social Mundial – como uma oportunidade de reunir diversos grupos de agroecologia em encontros tão produtivos, os quais geraram inclusive a formulação de alternativas que minimizam ainda mais impactos ambientais que um evento deste porte pode acarretar, fortalecendo assim a proposta comprometida com causas socioambientais. Alguns exemplos podem ser citados: distribuição de canecas para os participantes do evento, reduzindo o uso de copos descartáveis e consequentemente a produção de lixo; compra de produtos de origem local para construção da estrutura física do evento, para favorecer os mercados regionais; planejamento consciente do destino dos diferentes resíduos, direcionando- os à devidas usinas de reciclagem.

Finalizamos agradecendo a oportunidade de um encontro tão abrangente de importantes movimentos sociais, todos comprometidos com uma real transformação do planeta em que vivemos. O espaço foi muito rico em termos de troca de conhecimentos e informações de alta relevância para o mundo.

 

Muito Gratos,

GAE – UFRuralRJ; IARA – UFRuralA; FEAB – GeTerra; FEAB – Aranã; Agrovida – UFRB; UFPR – litoral; EVA – UFS; GEAE – UFPR; Ecovida – São Miguel; CPT/RS – UFSM; Capim Limão – UFRJ; GAUFC; GA – UFRuralRJ e EMA – Escola da Mata Atlantica.

III ENGA e VII CBA: CARTA À ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AGROECOLOGIA

VII Congresso Brasileiro de Agroecologia e

III Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia

Intervenção da REGA

O ENGA (Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia) surgiu a partir da necessidade dos Grupos de Agroecologia de todo o país de se reunirem em um espaço autônomo de diálogo horizontal, práticas e trocas de experiências. A fim de fomentar a convergência de idéias e ações dos grupos a nível nacional, o encontro visa a aproximação e articulação entre grupos de Agroecologia, movimentos sociais, comunidades tradicionais, academia e demais envolvidos no movimento agroecológico.

Nós, da REGA (Rede Nacional de Grupos de Agroecologia), buscamos a ruptura com os modelos hegemônicos vigentes. O sistema de produção capitalista, educação mercantilizada, desvalorização cultural dos povos, marketing verde, relações sociais corrompidas e apropriação da natureza são obstáculos que impedem a Agroecologia de avançar abarcando todas as dimensões essenciais de sua visão holística.

Buscando maior coerência entre os ideais e princípios com a práxis agroecológica, o ENGA é construído coletivamente, sem fins lucrativos, priorizando alimentos de produtores locais agroecológicos e relações solidárias. Há o esforço constante para que o compartilhamento e a construção dos saberes aconteçam de forma acessível, flexível, crítica e criativa.

É necessário que todas e todos trabalhemos juntos para minimizar as contradições que vem ocorrendo nos Congressos Brasileiros de Agroecologia e outros espaços do movimento agroecológico, inclusive o próprio ENGA. Em nosso terceiro encontro, que ocorre anualmente, nos vemos em pleno processo de amadurecimento e consolidação dos meios organizativos.

Propomos, então, que haja maior integração entre os eventos a partir de um apoio mútuo que propicie maior consistência ao movimento da Agroecologia como um todo.

A fim de fomentar a construção coletiva dos espaços, convidamos todas e todos a participarem do ENGA nos anos em que não ocorre o CBA, e sugerimos que nos anos em que ocorre o CBA, seja considerada a importância do ENGA como um espaço complementar e não paralelo. Portanto, nossa intenção é de colaboração, união e harmonia. Conciliar o que acreditamos em nossas vidas com o que fazemos em nossos espaços é parte fundamental do processo de transição agroecológica que tanto acreditamos.

Atenciosamente,

REGA – Rede Nacional de Grupos de Agroecologia
III Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia
Fortaleza -CE, 15 de dezembro de 2011

CARTA À ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AGROECOLOGIA/ V ENGA e VIII CBA

VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia e

V Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia

Através do diálogo realizado durante o VII Congresso Brasileiro de Agroecologia e o III Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia em Fortaleza no ano de 2011, tornou-se nítido que a sinergia entre os eventos representa um avanço e o fortalecimento da Agroecologia em âmbito nacional.

A REGA (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil) surge a partir da necessidade de articular os Grupos de Agroecologia (GAs) do país de forma autônoma e horizontal. Neste sentido, o ENGA é a expressão máxima da nossa unidade ao proporcionar espaços de trocas e práticas agroecológicas.

Durante o V ENGA, conjuntamente com o VIII CBA, percebemos que, através do amadurecimento da Rede e desta relação, foi possível a concretização dos eventos de forma complementar. Reiteramos a intenção de que, quando o ENGA ocorrer concomitantemente ao CBA o Encontro deve, além de propiciar espaços para a realização das atividades do congresso, proporcionar uma maior integração entre os diversos sujeitos atuantes na agroecologia. Nos anos em que não houver o CBA, o ENGA continuará trabalhando as demandas relacionadas à Rede, como organização, formação, discussão e demais ações.

Dentre nossas ações, destacamos a realização das Feiras de Troca de Sementes, que promovem o resgate, a preservação e o livre acesso às sementes, assim como aos saberes tradicionais aliados aos conhecimentos acadêmicos.

Acreditamos na Agroecologia transcendendo os limites da academia, com a responsabilidade de construir o conhecimento junto à sociedade. Entendemos a Agroecologia como uma ferramenta fundamental, que contribui com a ruptura do paradigma capitalista vigente a fim de proporcionar a transformação sociocultural que sonhamos.

Porém, é evidenciado cada dia mais um processo de mercantilização da Agroecologia no Brasil, seja restringindo a Agroecologia apenas a sua dimensão ambiental, ou na própria criação de um novo nicho de mercado, evidenciado no superfaturamento dos alimentos orgânicos, obrigando grande parcela da população a consumir alimentos envenenados e geneticamente modificados.

A Agroecologia é muito mais que a produção de alimentos saudáveis, sendo fundamental o resgate sociocultural das comunidades a fim de promover uma nova relação de mercado, aproximando o agricultor do consumidor, contribuindo para a tão necessária aliança entre campo e cidade.

As mulheres tem papel fundamental na construção desta nova sociedade, promovendo o trabalho e cuidado com a terra, resgatando os saberes tradicionais através da preservação das sementes crioulas e trabalho com as ervas medicinais. A igualdade de gênero nos espaços de discussão e tomada de decisões é outro elemento fundamental para caminharmos rumo à nova sociedade que queremos.

Por fim, reafirmamos nosso compromisso para com a construção da Agroecologia no Brasil, e nos colocamos abertos ao diálogo com todas as organizações que promovem a difusão da Agroecologia no país. Desta forma, convidamos todas e todos (camponeses; camponesas; juventude rural e urbana; movimentos sociais; comunidades tradicionais; grupos de agroecologia; academia e demais envolvidos no movimento agroecológico) a participar do próximo ENGA que será realizado no final do ano de 2014. Contamos com a participação e apoio de todos os compromissados com a Agroecologia para que seja possível a consolidação de uma unidade na construção de uma nova sociedade livre da exploração e da fome.

Há-braços agroecológicos,

REGA – Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil

V Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia

Porto Alegre – RS, 28 de novembro de 2013

Carta Aberta sobre o papel da Agroecologia no processo de regulamentação da descriminalização e legalização da planta Cannabis

O processo de regulamentação da descriminalização da Cannabis está sendo discutido nos fóruns legislativos brasileiros no momento. Contribuindo com esse processo, a REGA – Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil, em seu último encontro nacional, realizado de 12 a 16 de novembro de 2014 deliberou na assembléia final os seguintes pontos para uma ampliação do debate entre os órgãos governamentais e a sociedade civil organizada:

1)      A necessidade de autorizações para pesquisa científica nos temas de uso da Cannabis como: Defensivo Natural Agrícola, Uso Alimentar e Nutricional, Têxtil, Medicinal, Espiritual, Cultural e Recreativo. Essas pesquisas são fundamentais para embasar o debate que está sendo feito nas instâncias governamentais.

2)      É preciso discutir mais democraticamente com a sociedade o modelo de produção proposto na regulamentação, ressaltando que a descriminalização e legalização deve favorecer a agricultura familiar camponesa e urbana, principalmente agroecológica, evitando o modelo de monocultivo em grandes propriedades com alto uso de insumos e defensivos químicos.

3)      O modelo de produção agroecológico vai garantir a segurança alimentar e genética tanto das sementes crioulas, quanto da produção para o uso medicinal e alimentar. Combatendo possíveis monopólios do agronegócio, da indústria farmacêutica e tabaqueira.

4)      É fundamental um levantamento histórico e jurídico do uso, dos processos de criminalização e da violência policial, analisando como a cannabis é uma planta cuja proibição está relacionada a perseguição de grupos sociais marginalizados especialmente em comunidades afrodescendentes.

São Carlos, Primavera 2014.

São Carlos, Primavera 2014.

Sim, a agroecologia é possível

O VI Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia do Brasil (VI ENGA) realizado na Ecovila Tiba, no município de São Carlos (SP), entre os dias 12 e 16 de Novembro, marca um momento histórico para a articulação e engajamento dos Grupos de Agroecologia, Coletivos Autônomos, Projetos de Permacultura e demais organizações integrantes da Rede no cenário geral do Movimento Agroecológico Nacional.

O tema deste ano foi “Se-Mentes Livres, Re-Existência!”, valorizando os saberes e práticas de todos os seres que estão envolvidos no debate conceitual e na luta diária pela construção de uma nova realidade social agroecológica. Neste encontro avaliamos que conseguimos manter coerência entre discurso e a nossa prática, através de metodologias alternativas para a sua construção, reuniões preparatórias, vivências e mutirões no local e em outras regiões do Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O encontro: pondo o discurso em prática

Foram 5 dias de intensa vivência e trabalho entre as mulheres, homens, jovens e adultos, mestres de todas as idades, além de crianças e animais num clima, ousamos dizer, mágico! Trocamos muitas experiências, conhecimentos, intensificamos nossos laços de fraternidade e solidariedade e agora voltamos para nossos territórios cheios de inspiração e confiança de que, em primeiro lugar: não estamos sozinhas/os e não somos tão poucos assim. Segundo, é possível fazer política e articular coletividades em torno de um projeto de sociedade com métodos autogestionários, horizontais, não hierárquicos e radicalmente democráticos. Em terceiro, o mais importante: o sonho não acabou, as utopias são possíveis e enquanto houver uma semente de esperança e braços dispostos, todo sonho pode vicejar em realidade no momento presente.

Durante o encontro, que chegou a contar com 700 pessoas, entre agricultores e moradores do município que vieram visitar, contamos com 100% de banheiros secos para atender os encontristas, um ponto importante de nossa proposta para o planeta. A água do encontro veio em sua maior parte da chuva que foi captada numa cisterna construída nos encontros regionais que antecederam o evento, além da água do poço da propriedade e, em menor parte, tivemos auxílio de um caminhão pipa. Todos os produtos de higiene: sabonetes e shampoos artesanais, cremes e pós dentais naturais, foram especialmente produzidos pela Comissão Organizadora. Usamos o mínimo de energia elétrica, apenas para microfones, computadores, equipamentos de som e para alimentar a programação da Rádio livre que rolou durante todo o evento. O financiamento veio das inscrições, de doações feitas pelos Núcleos de Agroecologia e de estratégias de financiamento colaborativo entre integrantes da REGA-Brasil.

A alimentação do encontro foi em parte plantada na própria Ecovila Tibá além de contribuições trazidas de diferentes regiões pelos participantes, a maior parte foi adquirida da agricultura familiar regional e contamos com alimentos orgânicos e agroecológicos. Os agricultores presentes no encontro trouxeram sua produção como forma de troca já que sua inscrição foi gratuita e o alimento foi preparado coletivamente através de equipes formadas pelos próprios participantes que se revezaram também na manutenção dos banheiros, organização dos espaços e preparação das dinâmicas.

Aproximação com ANA e ABA: fortalecendo os elos dessa união rsz_fotos_vi_enga

O aprofundamento das pautas nas plenárias levou à proposta de articular cada vez mais os elos dos grupos que compõem a REGA-Brasil, principalmente na temática da demarcação das terras dos povos indígenas e tradicionais, incluindo quilombolas e caiçaras. Através da proposta de um Seminário Nacional sobre Agroecologia e Povos Indígenas/Tradicionais, a Rede vai se dedicar a ampliar o diálogo que já vem sendo construído com os movimentos que compõe a ANA e a ABA, no sentido de valorizar o reconhecimento de que os territórios tradicionais também são territórios agroecológicos. Nossa campanha nacional, o “Maio Agroecológico”, foi levantada como uma das principais estratégias para dar visibilidade às nossas experiências e pautas, assim concentramos no mês de Maio nossos esforços para construir diversas atividades e iniciativas disseminadas pelos grupos nos territórios do país.

Políticas públicas, estratégias de comunicação com a sociedade e pautas para o próximo período

Sobre o debate crítico às Políticas Públicas, caminhamos no sentido de propor uma rede de experiências de base, em que a descentralização dos recursos da PNAPO (Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica) seja possível através de Pontos de Agroecologia, no qual organismos de base possam ser protagonistas da organização e gestão de seus projetos e recursos. Também dialogamos sobre o impacto das políticas do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), entendemos que há necessidade de desburocratização desses importantes programas de acordo com as práticas e necessidades dos movimentos de agricultores e organizações parceiras que as realizam não perdendo de vista o patente avanço que essas políticas representam no campo da Agroeocologia no Brasil.

No caminho de construção de uma sociedade justa, sustentável e viável, vemos a Reforma Agrária como um ponto central, a Educação Popular Emancipatória e a gestão dos recursos hídricos fazem parte dessa luta. Construímos espaços para o debate e construção da igualdade nas relações de gênero, avançamos no tema da descriminalização da Cannabis, que não deve ficar fora dos resumos, e reafirmamos nosso apoio aos movimentos de ocupação rural e urbana, pelos direitos dos animais, democratização dos meios de comunicação, desmilitarização da polícia, parto humanizado e da luta LGBTQI. Nos posicionamos contrariamente aos projetos de lei e investidas das empresas e conglomerados multinacionais do ramo sementeiro e biotecnológico contra os direitos das/os agricultoras/es ao acesso à agrobiodiversidade e contra quaisquer iniciativas que minem a autonomia e soberania dessas/es sobre as suas sementes livres.

Para nós da REGA, a Agroecologia, é um movimento que engloba todas essas lutas que estiveram tão presentes nos debates do Encontro. Vemos a Agroecologia como um projeto para toda a sociedade, seja urbana ou rural, incluindo as formas de viver dos indivíduos em um processo que se dá no tempo e no espaço e implica comprometer-se com o Todo – A Sociedade; e com a parte – Cada Ser.

E sabem de uma coisa? É POSSÍVEL!

REGA-Brasil
Primavera de 2014

CARTA ABERTA – VI ENGA

CARTA ABERTA “VI ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE AGROECOLOGIA

Semear a liberdade, auto gerir, assumir a responsabilidade individual, desconstruir paradigmas e arregaçar as mangas para construir um todo que acolha, respeite e aprenda com a diversidade. Respeitar a liberdade de cada um. Re-significar o olhar acerca de como as coisas podem ser nesse mundo, perceber nossos padrões, escolher e re-existir. “Sê Mentes Livres – Re-Existência”, este foi o tema do VI ENGA (Encontro Nacional dos Grupos de Agroecologia), que aconteceu do dia 12 a 16 de novembro de 2014 na EcovilaTibá, em São Carlos – SP. O ENGA é um encontro construído pela REGA (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil), uma rede que nasce de grupos e indivíduos que praticam a agroecologia e, a partir de uma tomada de consciência, percebem que se ver no outro pode fazer a diferença para o mundo que acreditam, fortalecendo assim a construção desse movimento de transformação. O processo de construção do evento é uma forma da REGA materializar seus objetivos de incentivar a emancipação e autonomia do ser humano, de qualquer forma de dominação e opressão que os tabus alimentados pelo sistema capitalista têm exercido na sociedade. Para isso cultivamos a cultura de paz, e o estímulo a uma vida mais integrada a natureza. Como ferramentas para isso, praticamos a Permacultura, a Comunicação Não-Violenta e estimulamos o desenvolvimento local agroecológico partindo da autogestão e da horizontalidade. No V ENGA, em Porto Alegre-RS, uma semente foi semeada e, a partir daí, sob os cuidados dos grupos de São Paulo o VI ENGA começou a germinar. Para cultivar essa semente os grupos da região de São Paulo se uniram e muitas mãos, mentes e corações trabalharam. Este tipo de articulação regional contribuiu para o evento, e como consequência os grupos do estado estão agora mais fortes. Em junho de 2014 ocorreu o Sementário da REGA, em Antonina-PR, com a presença de grupos de quase todas as regiões do país e foi fundamental para que o acúmulo político da rede entrasse em sintonia com a construção do encontro. De lá saíram muitos encaminhamentos metodológicos, além de muitos sonhos que viriam a ser realizados. A agroecologia nos ensina que plantar com amor sempre nos trará bons frutos, então não poderia ser diferente. Com muito envolvimento e a partir de metodologias participativas, nos encontramos periodicamente para regar, adubar e energizar esta planta que pouco a pouco vinha crescendo. Um grande fruto deste trabalho é o cuidado para que o ENGA fosse um evento realmente coerente, aproximando o discurso da prática. A alimentação foi originada em sua maioria da agricultura familiar, dos grupos de agroecologia e de assentamentos da reforma agrária, gerando renda para a comunidade e nutrindo as pessoas de saúde e energia vital. Todos os produtos de higiene foram fabricados com bases ecológicas, sendo disponibilizados para todos os participantes. Sabonetes, pó e enxaguante dentais, shampoo, entre outros. Os resíduos gerados foram tratados coma utilização de banheiros secos, além da separação dos recicláveis e compostagem dos resíduos orgânicos. A água também recebeu sua devida atenção. Os chuveiros e torneiras foram abastecidos com água da chuva, através de uma cisterna de captação construída para o encontro. A união entre prática e teoria também se deu nas oficinas que foram organizadas de acordo com as sete pétalas da Permacultura. Educação popular, reforma agrária, agricultura biodinâmica, bioconstrução, manejo dos recursos hídricos, biodiversidade, e a valorização da cultura popular foram alguns dos temas aprofundados por focalizadores que vieram de diferentes partes do Brasil com importantes conhecimentos para serem compartilhados. O encontro acolheu a todos, crianças de todas as idades, desde os bebês de poucos meses até mestres vivos que nos deram o ar da graça. As crianças contaram com o cuidado de todos e tiveram um espaço próprio para elas, o Enguinha. A valorização da diversidade cultural é outro ensinamento da agroecologia e que foi muito honrado nas culturais do encontro, com lindas e empolgantes apresentações. Toda a cerveja oferecida nessas atividades foi de origem artesanal, sem transgênicos, produzidas por grupos autônomos ligados a rede. Outro momento especial, sempre muito marcante nos espaços da REGA, foi a feira de troca de sementes que incentiva a conservação da diversidade. Com muita música e cultura, muitas variedades de sementes foram trocadas e compartilhadas, culminando em um mutirão para plantar um banco vivo de sementes e nos reconectar com a ancestralidade e os ensinamentos da Mãe Terra. No encontro tivemos a oportunidade de fortalecer nossos laços com a ABA (Associação Brasileira de Agroecologia) e a ANA (Articulação Nacional de Agroecologia), com a realização de uma mesa redonda com representantes de ambas as organizações, abrindo novas perspectivas para inserção política dos grupos de agroecologia. Diversas propostas foram feitas no sentido de possibilitar o acesso às políticas públicas e editais de financiamento, assim como para criar acúmulo e contribuir para o aperfeiçoamento e criação de novas políticas. Foi ressaltada a importância dos grupos na formação profissional diferenciada e no trabalho direto com os agricultores, povos indígenas e comunidades tradicionais. Nesse sentido gostaríamos de enfatizar o nosso respeito pela luta de cada um desses povos e firmar nossa participação para que seus direitos sejam garantidos em nossa sociedade. Os recursos financeiros utilizados para a construção do encontro foram viabilizados pelo valor levantado nas inscrições, doações de grupos que compõe a rede e por uma campanha de financiamento colaborativo, da qual somos muito gratos. Por fim, em plenária histórica realizada no encontro, foram tirados os seguintes encaminhamentos do VI ENGA:

-Fortalecer, dar continuidade e multiplicar as campanhas da REGA como o Maio Agroecológico, o Plante o ENGA, o Sementário, as Caravanas Agroecológicas, as Micorrizas e as Feiras de Trocas de Sementes; -Apoiar as seguintes causas: campanha permanente contra o uso dos agrotóxicos e pela vida; a construção do pós-capitalismo; reforma agrária popular; demarcação das terras indígenas; uso sustentável dos recursos hídricos; igualdade de gênero; descriminalização da Cannabis; apoio às ocupações urbanas e rurais; apoio ao exôdo urbano; economia solidária e consumo consciente; agricultura urbana; direito dos animais; desmilitarização da polícia; democratização dos meios de comunicação; igualdade racial; parto humanizado; apoio à luta LGBTQI. -Sistematizar e compartilhar saberes entre indivíduos e grupos de forma a facilitar ações de apoio mútuo. -Proporcionar a integração e a presença de povos indígenas e tradicionais no movimento agroecológico, reconhecendo sua importância na resistência cultural, territorial e na contribuição para a conservação da sócio-biodiversidade. -Aprofundar nosso debate sobre educação popular emancipatória e agroecologia, problematizando a atual educação formal em agroecologia. -Debater na REGA a nossa concepção de Agroecologia para aprofundar o diálogo com as diferentes concepções nos movimentos sociais. -Estudar e nos capacitar com metodologias de gestão participativa para a estruturação da REGA.

Temos consciência dos desafios que nos são apresentados, numa sociedade marcada pelas relações regidas por tabus, crises humanas e por uma governança pautada na representatividade verticalizada, da qual ainda estamos dependentes. Esperamos que a experimenta-ação do encontro reverbere nos indivíduos e grupos de agroecologia nas práticas cotidianas, funcionando como um fractal da mudança que queremos para o mundo.

São Carlos, 16 de Novembro de 2014.

Atenciosamente, REGA (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil)

Carta Aberta VI ENGA PDF